5 MOTIVOS POR QUE SEMPRE VOLTAMOS PARA O HAWAII

Está aberta a temporada havaiana! Os swells já estão entrando no pico e com eles também os surfistas, fotógrafos, filmmakers… Mas nessa época também vem o crowd e aquele “estresse” do localismo!

Então, o que faz um surfista ficar fissurado para voltar todo o ano? O que leva centenas de fotógrafos a passarem meses registrando a onda que mais foi clicada na história? O que motiva os editores e jornalistas a escreverem anualmente sobre um pico onde quase tudo já foi escrito?

Durante todos os anos de existência da Surfar, nossa equipe esteve presente em todas as temporadas havaianas e respondemos agora por que não conseguimos ficar longe do Hawaii! Confira!

Fotos: Pedro Tojal

Pipeline. 

1 – AS ONDAS

O primeiro motivo é obvio! As melhores ondas do mundo estão por lá! E o melhor: a maioria delas distribuídas em uma área conhecida como as “Sete Milhas Milagrosas”. Estendendo-se por mais de 11 quilômetros, as praias da meca do surf vão de Haleiwa, com direitas pouco exploradas pelos surfistas de fora e uma verdadeira pista de manobras, até V-land, o paraíso da molecada.

Nesse caminho encontramos picos clássicos, como Laniakea, a direita mais longa da área; a Baía de Waimea, que segura as maiores ondulações da ilha; Pipeline, o melhor tubo do mundo; Rocky Point, onde os surfistas extrapolam os limites nos aéreos, e Sunset Beach, que reúne todos esse fatores na mesma onda, quebrando grande, manobrável e tubular. Uma onda que impõe respeito até para os surfistas mais experientes.

Waimea bombando. Foto: Annibal.

Com opções para todos os níveis de surf, o North Shore recebe milhares de surfistas durante os meses de novembro a março. Agora imagina como os havaianos ficam estressados depois de esperarem o ano todo no flat e verem suas praias sendo invadidas pelo maior crowd da Terra?! Além dessa multidão, os locais ainda cedem espaço para diversos campeonatos. Mas com um pequeno detalhe, uma grande parte das inscrições são exclusivas dos havaianos, caso contrário não tem competição. Fato que tem provocado constantemente uma queda de braço entre eles e a poderosa World Surf League.

Perfeição em Laniakea. Foto: Bruno Lemos.

Agora, o que realmente deixa eles ainda mais nervosos, é quando os melhores swells da temporada entram exatamente na janela de espera desses eventos com ondas épicas que deixam os freesurfers quase infartando na areia. Quando rola uma pausa nas competições, o outside fica lotado com locais e haoles tentando pegar a tão sonhada onda da temporada.

Sunset, a direita mais power do North Shore. Foto: Bidu.

Mas por que milhares de surfistas disputam braço a braço essas ondas em vez de buscar novos picos pelo mundo? A resposta é simples! Mesmo com crowd, o Hawaii é o lugar para pegar a onda da vida! Além disso, todas as marcas, os principais fotógrafos e as maiores revistas sempre estarão lá. Uma fonte inesgotável de conteúdo para todas as mídias, com uma constância muito grande de swells de todos os tipos e tamanhos. Esse é o ciclo do Hawaii.

O estúdio fotográfico de Off The Wall. Foto: Tiago Navas.

No meio do ano o surfista pode ir para qualquer lugar: Tahiti, México e Indonésia. Porém, no final do ano a garantia de onda boa é lá. Basta entrar ondulação que em algum lugar das 7 milhas milagrosas vai estar clássico. E não tem que esperar maré, fundo e vento. É só lembrar que Oahu é uma ilha e que em algum local terá uma onda perfeita esperando para ser surfada.

 

2 – A ESTRUTURA

Com tantas opções de surf pelo mundo, por que continuamos indo para o Hawaii? Stephan ‘Fun’ Figueiredo tem a resposta perfeita: “Em qual lugar do mundo vou acordar, ir de bike até o mercado, tomar meu café da manhã, depois remar dois minutos até a melhor onda do mundo, tirar um tubão, sair do mar, pegar a foto com algum fotógrafo que registrou o momento e da praia mesmo enviar via celular a imagem para o mundo inteiro ver?”.

Essa resposta mostra por que o Hawaii é tão especial em questão de estrutura para o surfista. Nem se fizessem um parque temático do surf conseguiriam reunir tantas atrações. O North Shore é o único lugar do mundo que tem boas ondas, acomodações, restaurantes, mercados, lojas, segurança e hospital em um espaço físico tão curto.

A Kamehameha, estrada mais “surf” do mundo, passa pelos principais picos. Sem sair dela você tem acesso a todos os serviços que possa precisar. Na área do North Shore são pelo menos dois supermercados, quatro postos de gasolina, dezenas de restaurantes, surf shops e um grande resort chamado Turtley Bay. Estima-se que durante o ano mais de 300 mil pessoas se hospedam por lá, principalmente os japoneses que vemos por todos os cantos da ilha.

Se você tomar uma vaca sinistra e precisar de socorro,  pode ficar tranquilo. A equipe de salva-vidas do Hawaii é uma das mais preparadas e equipadas do mundo. Eles contam com jet skis, quadriciclos e até helicóptero. Se por acaso o acidente for sério, uma ambulância chegará rapidamente e em menos de quinze minutos você já estará sendo atendido na emergência do hospital de Kahuku. Agora se prepare: se não possuir um seguro, você terá que pagar 100 dólares por cada ponto que tomar!

North Shore, uma região estruturada para o surf. 

As praias são estruturadas tanto para quem surfa quanto para quem só quer curtir um sol. Essa é uma das únicas viagens em que o surfista pode levar a família ou a namorada sem preocupação nenhuma. Vários beach parks estão espalhados pela região. Todos equipados com banheiros, bebedouros, vestiários e estacionamento.

Nada melhor do que sair do mar, beber uma água, tomar um banho de água doce, trocar de roupa, pegar o carro que ficou na frente do pico, comer o tipo de rango que quiser, curtir o pôr do sol, namorar na praia com o céu estrelado, deitar e dormir com a agradável temperatura que de noite fica por volta dos 18 graus. É por isso que sempre voltamos para o Hawaii. Pela certeza de ser uma surf trip com altas ondas e sem perrengues, pelo menos fora d’água.

Pôr do sol.

3 – CONSUMO

Quando se fala em compras lembramos logo dos EUA. Produtos baratos, tecnologias de ponta e equipamentos sendo lançados. Agora imagina um pico com altas ondas e ainda por cima com todas essas opções de compra. O Hawaii é isso: quase um shopping center gigante dentro de uma ilha. Por todos os cantos respiramos consumo. As melhores marcas estão lá!  E o mais impressionante é que todas elas usam o surf para vender. Seja na Chanel, Louis Vuitton, Yves Saint Laurent ou mesmo em uma loja de departamento como a Sears. Basta entrar na loja e procurar. Em algum lugar vai ter pelo menos uma prancha.

O Hawaii é mesmo um prato cheio para as compras. Surfistas se equipam com quilhas, cordinhas, parafinas e boardshorts a preços muito baixos e qualidade excelente. Fotógrafos e filmmakers compram e testam na prática os melhores equipamentos. São lentes com zoom que focam até no olho do surfista, câmeras com resolução de extrema nitidez e filmadoras que registram a ação em super câmera lenta, captando os detalhes mais impressionantes do esporte.

A cada ano que passa equipamentos são lançados no Hawaii. Nos anos 80 foram as biquilhas, nos 90 a febre das triquilhas e na virada do milênio o boom do surf rebocado. Toda temporada é uma enxurrada de novas tecnologias sendo testadas na melhor pista de test drive do surf. No Hawaii sempre vai ter alguém querendo inventar moda.

4 – TURISMO

Nem só de altas ondas vive o Hawaii e, por incrível que pareça, isso é muito bom para o surfista. Tem hora que o corpo não aguenta mais tanta porrada e quando o mar dá uma acalmada nós agradecemos. O melhor é que na ilha tem muita coisa para fazer quando está flat.

Se você é daqueles que não consegue sair da água mesmo sem onda, a pedida é fazer snorkel no Sharks Cove, Hanauma Bay ou em alguma das praias paradisíacas da ilha. Se tiver ventando muito dá pra velejar de kite ou windsurf. Se o vento parar a boa é dar um rolé de paddle board. Se remar for muito monótono, você pode fazer um mergulho com os tubarões. Pode ter certeza que emoção não vai faltar, já que agora o pessoal está mergulhando sem gaiola. Vai encarar?

Haleiwa. Foto: Bruno Lemos.

Mas se cansar de água salgada também não vai ficar sem opção! Você pode se juntar aos milhares de japoneses que lotam as ruas e shoppings de Waikiki e gastar seus dólares em todos os tipos de loja da região.  Se quiser economizar, a dica é ir ao Outlet no meio da ilha em Waikele, que vende roupas de marca por menos da metade do preço.

Se você não gastar todas as suas economias ainda pode saltar de paraquedas, fazer um voo de helicóptero, dar um rolé de parapente, jogar golf, andar de cavalo ou viajar para outra ilha do arquipélago. Porém se não sobrou muito dinheiro para isso, você pode visitar o Waimea Valey, que tem uma linda cachoeira e trilhas para gastar um pouco das calorias de tanto fast food que se come nos EUA.

Além das altas ondas, o arquipélago também oferece outros atrativos.

Em Oahu também existem algumas opções culturais, como visitar o Centro de Cultura Polinésio, que é uma verdadeira aula sobre os povos que vivem nas ilhas do Pacífico, ou ir até Pearl Harbor conhecer a história da guerra que destruiu a ilha e entender por que o Hawaii é tão estratégico para os EUA. Os brasileiros que vão passar a temporada toda surfando não têm muita paciência para esse tipo de turismo.

O mais comum nos dias sem onda é fazer churrasco, beber cerveja, jogar bola, tentar arrumar alguma mulher na praia e quando não dá certo encarar uma hora de estrada para fazer noitada em Waikiki, já que o North Shore em relação à vida noturna é mais conhecido como “Morte Shore”, com apenas alguns bares em Haleiwa repletos de havaianos bêbados e algumas poucas mulheres.

A onda em frente ao hotel Turtle Bay. Foto: Annibal.

5 – ALOHA SPIRIT

Aloha quer dizer muito mais do que “seja bem-vindo”. É um estado de espírito cheio de afeto, carinho, paz e compaixão. Os polinésios são assim naturalmente e é isso que nos faz voltar. Chegar a um lugar e se sentir bem recebido, com pessoas sorrindo e dispostas a ajudar. Um povo que vive da natureza, respeita as tradições, recepciona os visitantes e principalmente ama o mar.

O carinho que os havaianos têm pelo surf é notório! Eles gostam de surfistas por uma questão cultural. Sabem que a polinésia foi o berço do esporte e seus ídolos máximos são na maioria surfistas. Duke Kahanamoku, Eddie Aikau e Buffalo Keaulana são alguns que sempre serão lembrados e celebrados nos rituais havaianos. Exemplo disso é a cerimônia anual em homenagem ao Eddie Aikau, que faleceu aos 31 anos depois de sumir no oceano quando seu barco virou em alto mar. Ele e mais 27 tripulantes estavam fazendo a segunda travessia do Hawaii ao Tahiti. Ele decidiu ir nadando sozinho até a ilha mais próxima em busca de ajuda e nunca mais voltou. São histórias como esta que fizeram o surf ser tão respeitado por lá.

Aloha Spirit é uma marca do arquipélago.

O lendário surfista dos anos 70 Buttons Kaluhiokalani, conhecido pelos seus cutbacks com a mão na borda, trocas de base e frequentador das ondas de Sunset, é um verdadeiro sinônimo do Aloha Spirit.  Com sorriso estampado na cara, ele sempre garantiu que se você dá amor receberá amor. Dizia que os locais vão sempre pegar mais ondas do que os visitantes, mas garante que se o haole for paciente e respeitoso certamente pegará altas ondas. E realmente é isso que acontece.

Se esperar o famoso “haole time” ou cair em um pico menos explanado, você pegará altas ondas. Como, por exemplo, Haleiwa e Jockos, que durante a temporada quebraram perfeitos e sem stress no outside. Claro que em Pipeline o tal espírito Aloha muitas vezes é deixado de lado, mas também é compreensível. Os locais esperam o ano todo para surfar e quando fica clássico o crowd passa de cem pessoas. Agora imagina se Pipe fosse no Brasil? Ia rolar até tiro!  Esta é a diferença entre os havaianos e o resto dos surfistas. Pode até parecer que o localismo por lá é pesado, mas na verdade eles são uns “amores” e é por isso que sempre estaremos lá.

Visual do belo final de tarde em Rocky Point. Foto: Annibal.

MOTIVOS PRA NÃO VOLTAR NUNCA MAIS!

– Tomar uma vaca sinistra e ficar preso em uma caverna por mais de duas ondas seguidas.

– Ficar deslumbrado com tantas ondas, esquecer de voltar para o Brasil e ser preso pela imigração.

– Quase ser mordido por um tubarão em alguma bancada longe da praia.

– Ficar bêbado em alguma festa no North Shore e agarrar o travecão que trabalha no posto de Sunset.

– Rabear um local na melhor da série em frente à Volcon House e ter que sair da praia com 30 samoas gigantes correndo atrás de você.

Crowd pesado dentro d’água, Waimea! Foto: Annibal.