A BANCADA MAIS “TARJA PRETA” DO RIO

A loucura se instalou na cidade do Rio de Janeiro. Trata-se de uma laje localizada nas Ilhas Tijucas, no meio da Barra, a 4 km da praia, onde tubos quadrados quebram para a esquerda em um fundo de pedra bem raso e cheio de mariscos.

Pico perfeito para satisfazer a insanidade de Stephan ‘Fun’ Figueiredo, Pedro Calado e Paulo Curi, que contaram com os fotógrafos Igor Hossmann e Fernando Andrade para registrar essa missão “tarja preta” de desbravar a Laje do Gardenal.

Missão que está apenas começando, como garantiu Calado: “Durante o tempo em que eu estiver aqui no Rio e rolar um swell de sul/sudoeste grande, pode ter certeza que o meu foco vai ser o Gardenal.”

Stephan Figueiredo, Pedro Calado e Paulo Curi colocaram a coragem à prova na bancada mais “tarja preta” do Rio.

POR PAULO CURI


“Desde criança sempre vi aquela onda daqui de casa com um binóculo e reparei que nos dias grandes quebrava um tubo gigante lá. Quando passei a ter um jet ski, comecei a ir lá para conferir e vi que a onda realmente existe, porém o risco de se ferrar é muito maior do que de se dar bem. Fui várias vezes sozinho ver a pedra, namorar aquela onda… Via que uma ou outra dava para vir, a única dúvida era se a quilha ia arrastar ou não. Mas nunca consegui arrumar gente a fim de botar para baixo ali comigo. Todo mundo que eu levava dizia: ‘Está maluco, irmão! Vai morrer. Isso aí é insurfável!’ Apenas o Felipe Munga, do Alfabarra, queria puxar o limite lá comigo. Até que certo dia, eu estava com o Felipe Cesarano e o levei lá.

Quando chegamos, o gordinho ficou maluco: ‘Caraaalho! Vamos ter que surfar!’. Chamamos o Felipe Munga, o André Portugal e o Henrique Pinguim. Nesse dia estava grande e a gente conseguiu pegar uns rabinhos. Estávamos numa rebocada totalmente inexperiente. A gente vinha no rabo da onda e fazia uma curva para tentar uma foto ali.

O carioca Paulo Curi entocado dentro do tubão perigoso que proporciona a Laje. Nada disso seria possível sem o entusiasmo, disposição e o sonho dele de surfar esta onda. Foto: Fernando Andrade.

Agora,o Stephan Figueiredo estava no Rio de Janeiro e combinamos de fazer um tow-in no beach break porque estava uma merda para remar, mas aí ele falou: ‘Pô… Quero ver aquela onda da pedra. Já fui de kite, mas nunca consegui surfar lá com o kite.’ Então, nós fomos e reboquei ele em uma meia dúzia de ondas, assim vimos que dava para vir mais deep. Ele que começou a botar pilhar: ‘Meu irmão, vamos que vamos botar para dentro aqui. A gente vai pegar esse tubo ainda.’ Como estava dando onda direto, surfamos uns quatro dias seguidos lá.

Na primeira vez foi maneiro porque estávamos apenas eu e ele. Não tinha câmera, não tinha nada e conseguimos pegar umas boas. Já no dia seguinte, resolvemos chamar alguém para registrar. Falamos com o Igor Hossmann, que também chamou o Pedro Calado para surfar. Assim formou a equipe! No início, eu ficava muito preocupado com todo mundo querendo puxar o limite. É muito perigo. Como eu estava puxando eles, tinha medo deles se estreparem na pedra e ter que assumir a responsa. Imagina, as pessoas iam falar: ‘Porra… Paulinho é foda. Rebocou os caras e eles morreram na pedra. Matou os caras.’ Eu estava na maior insegurança porque eles são malucos, mas deu tudo certo.

A experiência de Stephan ‘Fun’ Figueiredo foi essencial para adquirir conhecimento sobre o pico. Foto: Igor Hossmann.

Todo mundo que eu levava dizia: ‘Está maluco, irmão! Vai morrer. Isso aí é insurfável!’

 

 

O fôlego tem que estar em dia para aguentar o caldo longo do Gardenal. Fotos: Igor Hossmann.

Como teve uma sequência de dias, fomos cada vez mais tendo noção de qual onda é a boa porque apenas uma ou outra é que dá para surfar. O resto é em cima da pedra. Cada vez eles vinham mais deep e assim o Fun tomou o primeiro vacão ali. Foi na base, no momento onde você não pode cair. Voltou junto ao lip. Todo mundo ficou preocupado até ele aparecer do outro lado da pedra 30 segundos depois. A onda te dá um caldão, depois te joga para o outro lado da pedra e te afunda de novo. Na última sessão, todo mundo tomou pelo menos uma vaca meio braba de achar que ia se ferrar e não se ferrou.

A gente não vinha mais do rabo, já vinha colado na pedra. Aos poucos, fomos evoluindo ao ponto de na última sessão do último dia eu e o Fun pegarmos um tubo e o Calado uma gigante. Mas estamos muito inexperientes ainda. Provavelmente, nos próximos anos já vai ter gente entubando na onda grande. É difícil porque se jogar um pouquinho para fora, você já sai do tubo. Tem que ter sangue frio de ficar parado no início, esperar a segunda sessão rodar e botar a prancha reta na direção da praia. Não é toda hora que a onda vem encaixada ali. Precisa vir no lugar certo e estar sem pororoca.

A adrenalina é máxima quando joga para dentro do tubo. Foto: Igor Hossmann.

Consegui achar a equipe certa para botar para baixo naquela laje e fazer coisas que ninguém nunca tinha feito. Eu sei que já tinham ido lá há muitos anos e pegado uns rabinhos. Apenas os bodyboarders tinham pegado uns tubos na laje. Mas agora conseguimos fechar uma galera maneira para ignorar o perigo e pegar os tubos na pedra. Foi maneiro para caramba!

Fiquei felizão de estar com o Calado e o Fun. O Igor também mandou bem nas imagens. O moleque é novo, mas já está representando nas fotos. Fiquei feliz também por termos conseguido fazer algo que ninguém tinha feito. Ainda vamos pegar o tubo numa grande ali. É só questão de tempo. É só Netuno ajudar e mandar um monte de bomba para  treinarmos cada vez mais.”

Brincadeira para gente grande, apesar da presença de um fotógrafo de 16 anos. Foto: Fernando Andrade.

POR STEPHAN ‘FUN’ FIGUEIREDO


 

“O Paulinho tinha me chamado para fazer step off  no meio da Barra. Surfamos por algumas horas e quando estávamos voltando decidimos passar na laje para dar uma olhada. Ficamos uns 30 minutos olhando as ondas de sudoeste e a corrente jogando para cima da pedra. Então, falei para o Paulinho me puxar em algumas e ele ficou amarradão. Nesse dia estava muito perigoso e estávamos reconhecendo o pico.

A real é que a onda é sinistra e muito difícil, tanto para o piloto quanto para o surfista. Uma puxada a menos ou a mais vai fazer toda a diferença na hora de surfar. Levamos alguns dias para achar o tempo certo da puxada e o local exato onde o surfista deve estar. Nesse dia, aprendemos a ver a direção exata da ondulação, a maré e o que é essencial para poder surfar e escolher as melhores ondas.

Mais um desafio vencido na carreira do ‘Fun’. Foto: Igor Hossmann.

Obrigado Paulinho pela logística e coragem, Calado e Igor pela instigação. Foi foda essa aventura com vocês. A laje nunca mais será a mesma. Que venham os tubos!

A assustadora onda da Laje do Gardenal nas Ilhas Tijucas. Foto: Igor Hossmann.

Muita gente que olha na foto ou vê a onda da praia, acha que a onda é de um jeito e fala: ‘Se eu estivesse ali, ia fazer isso ou aquilo.’ A única coisa que tenho a dizer é ‘vai lá e depois me conta.’ Demos um passo muito importante para surfar essa onda e tubos incríveis ainda serão surfados lá.

O belíssimo visual da praia da Barra. Foto: Fernando Andrade.

Desde que comecei a pegar onda na Barra, olhava da praia para a laje e via tubos enormes quebrando com baforada. Sonhava em um dia ir lá pegar. Já tinha ido algumas vezes na remada e de tow-in, mas sem muito sucesso. Dessa vez, achamos a fórmula exata para conseguir surfar a onda. Obrigado Paulinho pela logística e coragem, Calado e Igor pela instigação. Foi foda essa aventura com vocês. A laje nunca mais será a mesma. Que venham os tubos!”

 

POR PEDRO CALADO


 

Pedro Calado pronto para encarar uma das ondas mais perigosas do Rio. Foto: Igor Hossmann.

“Eu já tinha ouvido falar da laje, porém nunca tive a oportunidade de ir. Quem falava muito dessa onda era o Gordo (Felipe Cesarano). Achei muito animal, mas ao mesmo tempo muito perigosa. Rola um tubo bem quadrado parecido com Teahupoo, só que em miniatura, mas a única coisa que deixa a desejar é que a onda quebra bem em cima da pedra e em algumas o lip vai direto na pedra.

Na minha primeira vez, fui um pouco devagar para saber como funcionava. Observei bem onde quebrava, aonde eu teria que apontar a minha prancha e o momento certo para soltar a corda.

Durante os dias em que eu estiver aqui no Rio de Janeiro e rolar um swell de sul-sudoeste grande, pode ter certeza que o meu foco vai ser o Gardenal.

A parte mais difícil, se você quer mesmo pegar o tubo, é a puxada para entrar na onda. Nesse momento, você e o piloto do jet devem estar conectados para acertar o momento do tubo. Estamos evoluindo bastante nessa parte, mas errando muito ainda. Acredito que daqui a um tempo, nós vamos pegar altos tubos quando estivermos com essa puxada no pé.

Alma de big rider! Viciado em adrenalina, Pedro Calado não pensou duas vezes quando foi convidado para desbravar a Laje do Gardenal. Nesta e na foto abaixo, Calado na maior da série em duplo ângulo. Foto: Igor Hossmann.

Fico feliz de ter uma onda nesse nível bem perto de casa. Muita gente fala que ela não vale a pena ser surfada por ser um tubo muito curto e, se cometer qualquer erro, pode-se machucar feio nas pedras. Mas eu acho que vale a pena correr o risco porque, no momento em que se larga a corda, a adrenalina começa a bater no seu corpo e você percebe que a onda vai ser boa. Isso não tem preço!

Daqui para frente só vai ficar melhor. A galera está evoluindo a cada puxada. Então, acredito que daqui a um tempo vão ter umas imagens bizarras desse pico. Durante os dias em que eu estiver aqui no Rio de Janeiro e rolar um swell de sul-sudoeste grande, pode ter certeza que o meu foco vai ser o Gardenal.”

O outro ângulo da onda do Calado. Foto: Fernando Andrade.