“A BUSCA PELA ARTE SE TORNOU UMA NECESSIDADE”

O fotógrafo paranaense Celso Pereira Jr, 43 anos, começou sua relação com o surf no início da adolescência e sua identificação foi imediata. “Um primo meu que surfava me levou à praia e me identifiquei com o estilo do surf, o contato com a água e a natureza”, diz ele. Algumas semanas depois, pegou uma grana que estava juntando para um game e comprou sua primeira prancha, uma 5’9’’ do Gustavo Kronig, e não parou mais de surfar. Antes de ingressar no ramo da fotografia, Celso trabalhava com web designer e gerenciador de sites. Hoje ele se divide entre Vitória, no Espírito Santo, e Santa Bárbara, na Califórnia, e numa pausa entre as suas viagens esteve na Surfar para contar um pouco sobre a sua carreira.

Por Déborah Fontenelle

Estudos de “arquitetura” em preto e branco.

A CARREIRA

Celso começou a fotografar doze anos atrás e há oito trabalha com o surf. Sempre muito ligado no universo das artes, chegou a estudar violão clássico, Cinema e História da Arte nos primeiros anos da faculdade, além de Literatura Inglesa por incentivo de uma professora, pois curtia muito ler naquela época, principalmente linguagem contemporânea, mas não se via seguindo a carreira de escritor. Hoje ele diz que toda essa experiência serviu para direcioná-lo para o trabalho de criação de imagens. “No meu caso a busca pela arte se tornou uma necessidade, assim como comer e dormir. E é essa a necessidade que eu sinto em trabalhar com a fotografia.”

Por conta desse compromisso artístico, Celso explica que seu trabalho não precisa ser exclusivamente voltado para o surf ou apenas como uma forma de ganhar a vida, mas sim uma expressão e desenvolvimento de linguagem. “Busco esse trabalho com o surf por ser algo que também fez e faz parte da minha vida. Portanto, enquanto eu sentir essa necessidade e me manter estimulado pelos desafios do processo de criação, expressão e composição, como uma forma artística, eu continuo fotografando.”

… a busca pela arte se tornou uma necessidade, assim como comer e dormir…”

celsonfaltandoPeterson Rosa fugiu do crowd da Cacimba para surfar sozinho essa esquerda de cinema na Lage do Bode bem na hora que eu chegava à ilha de avião. 

TRABALHOS NO SURF

Seu primeiro trabalho no surf foi na cobertura da etapa do SuperSurf de Pernambuco em 2004. Foram as primeiras fotos no Brasil com câmera digital publicadas em uma revista especializada. Naquela época, a maioria dos fotógrafos ainda usava filme, apenas alguns novos profissionais que trabalhavam para sites e jornais é que utilizavam máquinas digitais, pois se acreditava que a qualidade da impressão digital era inferior ao filme e não boa o suficientes para revistas. “Eu tinha acabado de chegar da Califórnia com uma Canon D60 6.3 e já estava atualizado da transição das revistas no exterior migrando forte para o digital. Lembro que quando enviei minhas fotos em RAW aqui, eles não tinham ideia como manusear ou tratar os arquivos nesse formato e tive que reenviar em JPG”, relembra.

Apesar de estar trabalhando com o surf há oito anos, Celso possui imagens publicadas praticamente em toda a mídia especializada mundo afora e, recentemente, algumas de suas fotos do arquipélago de Fernando de Noronha abrem a edição especial sobre o Brasil na revista Surfing americana, além das outras fotos que estão na Surfer da Alemanha e na revista Outside, US.

VIAGENS

Seguindo um itinerário anual que inclui principalmente os Estados Unidos e o Brasil, especialmente Fernando de Noronha, Espírito Santo e Califórnia, o fotógrafo também procura encaixar trips para outros destinos de acordo com a necessidade dos trabalhos que vão surgindo ou sendo agendados.

Mesmo fotografando em diversos picos ao redor do planeta, Fernando de Noronha se tornou um dos locais mais especiais para Celso na sua carreira, pois foi no arquipélago que começou a buscar outras perspectivas. “Em minha primeira temporada fotografando na Ilha, percebi que os fotógrafos se limitavam a fazer as fotos de dentro d’água ou da areia da Cacimba. Então, comecei a explorar outros ângulos. Com isso, passei a criar um corpo de trabalho atrás dessa perspectiva inédita e minhas imagens começaram a ter um maior destaque e valorização. Dessa forma, fotos que fiz alguns anos atrás continuam super atuais e em demanda por conta de captarem uma visão ou sentimentos que não se perdem com o passar dos anos”, explica.

“… a falta de informação e educação sobre os direitos e valores profissionais, contribui muito para a presente ineficiência no mercado.”

Sereias saltando igual aos golfinhos.

FOTOGRAFIA: PRÓS E CONTRAS DA PROFISSÃO

Para Celso a maior vantagem na profissão é, sem dúvida, a oportunidade de viajar e conhecer novos lugares, como também ter a possibilidade de se relacionar com pessoas de várias culturas e origens diversas de uma forma mais profunda do que normalmente por conta da fotografia. Mas também existem certas inconveniências. “A maior desvantagem, sendo freelancer, é a oscilação de trabalhos e receitas de mês para mês que às vezes dificulta um melhor planejamento na execução dos trabalhos.”

O fotógrafo ressalta que outra parte negativa é que a classe é muito desunida profissionalmente, já que existe uma individualidade grande, sem falar no disparate entre qualidade e renumeração. “Existem muitos fotógrafos profissionais com anos de experiência vendendo fotos para uso comercial e/ou publicidade por valores menores que do uso editorial. Essa discrepância nas práticas, combinada com a falta de informação e educação sobre os direitos e valores profissionais, contribui muito para a presente ineficiência no mercado. Eis a razão pela qual as condições de trabalho e reconhecimento para os fotógrafos de surf não evoluem.” E finaliza: “Não existe um interesse comum ou iniciativa que poderia partir de um grupo dos profissionais mais experientes em regulamentar e organizar os direitos e a valorização da classe. Encontros ou debates para discussão e troca de experiências e informações são essenciais para uma melhoria e conscientização, mas como isso não ocorre infelizmente a tendência da situação é se perpetuar.”

Alexandre Ferraz abaixo do nível do mar na maré super seca da laje do Bode.

Parque de diversão na perfeição da Cacimba.

PROJETOS

No momento Celso possui vários projetos em andamento, está finalizando algumas matérias e já está pensando em novos desafios no meio do surf. Ele também tem trabalhos em outras áreas, como ensaios e alguns catálogos, além de ter recebido uma proposta para a criação de um livro. “Será um trabalho com algumas composições de imagens de textura e bem cruas e orgânicas que ando produzindo ultimamente. Algo bem artesanal”, conta.  No entanto, o maior projeto desse fotógrafo é continuar viajando o Brasil e o mundo afora fotografando. “Não apenas no surf, mas em centenas de outras coisas que me atraem, me intrigam e me proporcionam aprendizado, evolução e a oportunidade de compartilhar tudo isso com outras pessoas. A coisa mais gratificante, sem dúvida, é ver essa procura e interesse pelo meu trabalho.”

Experimentando dois filtros infravermelho + 21 Laranja que absorve as cores azul e verde.