A SALA DE SHAPE AGORA TAMBÉM É DELAS!

O mercado de fabricação de pranchas (ainda!) é um universo predominantemente masculino, com algumas mulheres shapers. Encontramos uma ou outra mulher por aí #shapeando.

Conhecemos através do inspire e conte-me  uma dupla que merece ser apresentada e, muito, bem! Anne e Tiala da CONGO Project, duas mulheres que abraçaram a fabricação de pranchas, o feminismo e o reforço da cultura afro e do nordeste. Tudo isso num pacotinho só!

Vale o vídeo e muito também a entrevista na íntegra. Confira aqui ó!

O mercado de shaper de pranchas é bem tradicional no Brasil. Muitos shapers homens consideram difícil a entrada nesse mundo quando se quer aprender. Vocês sentiram essa mesma questão?  E alguma diferença por serem mulheres?

Anne -  Ser mulher já é um sinônimo de enfrentar dificuldades, não é mesmo? Então, acho que em todas as áreas, por ser mulher, tudo se torna mais difícil.

O mercado de shapers realmente é bastante fechado aqui no Brasil. Existe uma política de não formação de mais shapers para não ter que “dividir” o mercado.

Senti realmente muita dificuldade na busca por informação, procurei alguns shapers locais para tentar aprender, mas todos me deram informações muito superficiais. Parece que a sala de shape sempre foi um lugar proibido nas fábricas de pranchas. Então, comecei a busca por uma forma mais profissional de aprender e tive que garimpar muito até chegar no curso ministrado pelo Henry Lelot, que pra mim é um grande mestre.

Qual foi a proporção de meninas e homens durante o curso?

Anne - Durante a minha turma foram três homens e apenas eu de mulher. Mas o Lelot já ministra esse curso há mais de 10 anos e, pasmem, eu fui a segunda mulher a participar.

Qual a reação das pessoas ao saberem que aquela prancha foi feita por “uma” shaper?

Anne - Olha só, eu não presenciei muitas dessas reações, até porque quem chega até nós já sabe que são mulheres que fabricam as pranchas. Mas conversando com um brother, um dos nossos primeiros “parceiros”, que é como gostamos de chamar quem compra nossas pranchas, ele sempre me contou que a reação é tipo: “Mulher? Sério? E faz direito? É confiável?”.

Silvana Lima nas ondas de Zippers Beach, onde conquistou a vitória do QS 6000 Los Cabos Open of Surf no início de junho. Foto: Andrew Nichols/WSL.

Vocês sentem a adesão e incentivo das meninas no movimento em prol do surf feminino fortalecendo a “parceria entre mulheres”? 

Anne - Atualmente temos um grupo de meninas aqui de Salvador que vem tentando fazer essa movimentação de união das mulheres dentro do nosso esporte. Tem surfistas de todas as profissões e em cada encontro todas ajudam como podem na integração. Isso tem fortalecido muito o movimento feminino do surf aqui na Bahia.

Quem vocês mais admiram entre as surfistas da nova geração?

Anne - Acredito que Silvana Lima é uma geração permanente, sempre será admirada por todas nós, não só pelo nível de surf, mas por toda a sua história.

Agora, da nova geração, tenho observado muito o trabalho da Yanca Costa, por ser mulher, negra, nordestina e por estar evoluindo muito rápido, acredito que ela é uma grande promessa para um futuro bem próximo.

É nítido como o trabalho de vocês vem do surf de alma. Optar pela produção hand made numa época onde grande parte dos shapers produz com máquinas foi por qual motivo?

Anne - As pranchas feitas à mão têm detalhes humanos que nenhuma máquina consegue reproduzir. Colocamos nosso sentimento, contando o tempo de vida da Congo, que é de seis meses, tendo feito aproximadamente 40 pranchas, isso da uma media de 6,5 pranchas por mês, sendo que a maior demanda esta sendo agora.

No primeiro mês, tivemos três encomendas. Atualmente trabalhamos somente com pranchas sob medida, que é o nosso foco, atender à necessidade de cada surfista de maneira mais pessoal com prazer no trabalho, nossa criatividade e tudo mais.

Em contra partida, as máquinas têm uma precisão absurda que nenhum ser humano consegue alcançar. Vejo que para as grandes fábricas, a máquina é indispensável para atender as demandas. No nosso caso, fazemos um trabalho de alta qualidade e muito pessoal, quase todas as pessoas que fizeram nossas pranchas se tornaram parceiros, alguns até amigos.

Não descartamos um possível uso de máquina para aumentar a produção no futuro, porque apesar da máquina fazer 80% do shape, esses 20% que faltam são justamente os ajustes finais que podem mudar completamente o projeto se o shaper não estiver bem integrado com o trabalho, ou seja, a máquina ajuda o shaper, mas não o substitui.

Quanto vocês abraçam a causa do fortalecimento, empoderamento feminino no ambiente (por enquanto)  de prevalência masculina do surf?

Anne - Abraçamos 100%! Somos mulheres, negras, nordestinas, entrando em um mercado completamente masculino. O nosso maior foco é justamente chamar atenção para o movimento feminista dentro do surf, valorização da nossa mão de obra, a humanização da mulher no meio do surf, que é extremamente machista.

Temos alguns projetos de oficinas só para mulheres, visando de inserção de outras no mercado de fabricação de pranchas, projetos que não saíram do papel ainda, mas estamos buscando apoio para realizar. Estamos aqui pra tentar mudar tudo que já foi estabelecido com relação à mulher dentro do esporte e da sociedade.

Vocês gostariam de serem vistas como referência para as meninas que sonham em aprender a shapear quebrando tabus? 

Anne - Com certeza essa é umas das definições que queremos para o nosso trabalho, não só de ser referência para essas meninas, mas como de ajudá-las a realizar esses sonhos.

É comum as pessoas acharem que a Congo é uma marca de pranchas fundada por duas mulheres e, consequentemente, feitas apenas para mulheres?   

Anne - Em relação aos rótulos que são usados para nos referenciar, alguns colegas shapers e até celebridades do surf tentaram passar essa imagem do nosso trabalho, de que seriam pranchas feitas pra meninas. Chegaram até a falar que nós por sermos mulheres poderíamos fazer pranchas adaptadas para o corpo feminino. Mas, como sempre digo, palavras não mudam nada, ações mudam tudo, hoje 90% das pessoas que consomem nossas pranchas são homens.

O nosso trabalho é de altíssima qualidade, independente de para quem seja feito. Cada milímetro da prancha é calculado de acordo com as características da pessoa que vai usar e é isso que tem transformado esse conceito de prancha para menina em prancha de alta qualidade feita por meninas.

Inclusive queria salientar que não somos duas meninas shapeando, eu sou a shaper, faço também a parte de produção gráfica. A Tiala lamina, lixa, faz a parte de criação das artes digitais e manuais. Ou seja, produzimos a prancha completamente em todas as etapas, só tem mão de menina nelas (risos)!

Yanca Costa é uma das grandes promessas do surf feminino brasileiro. Foto: Reprodução Facebook.

Por Longarina, parceira da Surfar na seção Surf Feminino.