BRAZILIAN GROWER

Desert Point é uma das ondas mais perfeitas do mundo, porém é no final da bancada, na parte mais rasa e perigosa, que quebram os maiores e mais intensos tubos. Durante seis meses nossa equipe cobriu todos os swells que entraram no Grower para responder a pergunta: Como que um grupo de brasileiros dominou a seção mais tubular de Desert Point, conhecida atualmente como Brazilian Grower? -  Texto e fotos por Pedro Tojal

DESERT X GROWER

A palavra em inglês Grow significa crescer e é justamente isso que acontece quando a ondulação chega na última seção da bancada de Desert Point, conhecida como Grower. É normal ver o Point com ondas de 4 a 6 pés e o Grower quebrando com 6 a 10 pés, mas é raro ver a onda conectando de ponta a ponta, então é preciso escolher qual seção surfar. Se você não tem medo de tubos largos e intensos seu lugar é no Grower, porém se você busca pelas ondas longas e perfeitas do Point é melhor ter paciência para disputar com o crowd que, às vezes, passa dos 100 surfistas. O motivo disso é que no Point o drop é mais fácil, a onda é mais previsível e raramente fecha. O Grower exige mais do surfista e do equipamento, pois o drop é vertical, a onda é extremamente rápida e geralmente fecha em cima de uma bancada rasa e afiada.

Cinegrafistas e fotógrafos estão se dedicando ao Grower pelo seu potencial fotográfico, já que a onda é maior, o tubo é mais largo e o crowd é quase inexistente. Surfistas profissionais se aproveitam desse fato para produzir vídeos e fotos para anúncios e revistas. Para quem não é profissional, se aventurar no Grower pode ser um risco. Todos os melhores “Brazilian Growers” já se machucaram e quebraram pranchas por lá. A divisão do crowd entre o Grower e o Point é diretamente proporcional ao nível de surf. Enquanto no Point existem ondas para todos os níveis, no Grower o surf é bem mais intenso e requer habilidade extrema para dropar e acelerar dentro dos tubos ocos e rápidos. Quem surfa nos dois picos diz que no Point é possível tirar um tubo mais longo e no Grower um maior.

“Quando eu vim pra Desert em 2006, ninguém falava de Grower e eu só surfei no Point. Esse ano quando cheguei surfei com toda a galera no Brazilian Grower e nem olhei pro Point… (Risos)” - Paulo Moura, ex-top WCT

Eu surfei o Grower pela primeira vez no campeonato da Surfar em 2011e sempre que posso volto pra cá. Essa é a onda da Indonésia mais parecida com Pipeline.” - Stephan Figueiredo

A HISTÓRIA

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Grower.

Nunca saberemos quem foi a primeira pessoa a surfar em Desert Point. Várias versões fazem dessa história um grande mistério e a única certeza que temos é que o americano Paul Miller, conhecido como Mister Desert, é o surfista que mais tubos pegou por lá. Desde os anos 80, ele dedica parte de sua vida à onda e hoje é apenas mais um no meio do intenso crowd. Questionado por nossa equipe sobre se refugiar no Grower, ele respondeu: “… eu só surfo lá quando pego uma onda perfeita que emenda na bancada inteira. Nunca dropei direto no Grower porque a onda é muito perigosa e acredito que em breve alguém pode morrer ali. A pior situação que passei em Desert foi quando conectei uma onda do Point até o Grower. Quando sai do tubo fui surpreendido por uma série de oito ondas que quebraram na minha cabeça e que me prenderam na parte mais rasa dos corais… Eu quase morri!”

Durante anos a onda ficou esquecida, afinal por que se arriscar no Grower quando se tem Desert quebrando perfeito? A resposta veio com o crowd e a dificuldade de surfar no Point. Em 2008, o freesurfer Marco Giorgi pegou um tubão de 10 segundos que foi capa do Surfline, o maior site de surf do planeta. O vídeo desse tubo mostrou para o mundo que a onda era domável e, a partir daí, o Grower deixou de ser o “patinho feio” para se tornar destaque em filmes e revistas. Em 2009, o americano Rob Machado foi até Desert gravar o filme The Drifter e, por causa do número excessivo de surfistas, teve que se dedicar exclusivamente ao Grower para essa produção hollywoodiana. Depois que o filme foi lançado, o número de surfistas só aumentou e as brigas também. O pico, que um dia foi surfado somente pelo Mister Desert e seus amigos, se tornou um dos lugares com o maior crowd do mundo.

“Sempre surfei no Point, mas de dois anos pra cá o crowd me fez olhar pro Grower com outros olhos. Além de ter menos gente, a onda do Grower é bem mais intensa e adrenalizante!” Leandro Keesse, surfista local de Maresias

O DOMÍNIO BRASILEIRO

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Um brinde aos tubos. Stanley, Pet, Eric, Ian, Tripa, Gabriel e Fun.

Depois que o filme The Drifter foi exibido ao redor do mundo, o crowd em Desert Point só aumentou. Surfistas do mundo inteiro passaram a sonhar com as ondas perfeitas surfadas por Rob Machado e isso fez com que Desert chegasse ao seu limite. Havaianos e australianos se rabeavam sem parar e várias brigas rolaram no outside e na areia. Em 2010 alguns havaianos chegaram a criar um grupo chamado de “Desert Posse”, uma referência aos “Pipeline Posse” e aí as confusões ficaram mais intensas. Quem não gostou disso foram os locais, que passaram a ter prejuízos com o afastamento dos turistas. Em 2011, um grupo de brasileiros, que surfava apenas no Grower, resolveu botar ordem na casa e sempre que algum havaiano ou australiano rabeava era rapidamente repreendido. Depois de algumas brigas em defesa da paz e tranquilidade, esse grupo passou a ser respeitado e admirado pelos locais. A moral que os brazucas tiveram com os locais foi tão grande que a Revista Surfar teve o aval para fazer o primeiro campeonato da história de Desert, apenas com brasileiros e indonésios na água.

Depois da competição, vários surfistas do Brasil passaram a se dedicar exclusivamente ao Grower. Alguns deles nem se quer olham para o Point e só entram na água quando a última seção da onda está funcionando. O fluxo de brasileiros é tão grande nessa seção que surfistas de outros países não se sentem à vontade para surfar ali, apesar do clima ser tranquilo e ninguém se rabear. A dedicação da galera ao pico foi tão grande que os próprios indonésios passaram a chamar a seção de Brazilian Grower. Na praia também existe um território brasileiro, já que um dos restaurantes, batizado de Grower Warung, virou ponto de encontro da galera. Sempre que tem swell, surfistas e gatas do Brasil lotam o Warung e fazem do lugar um cantinho verde e amarelo em pleno paraíso das ondas perfeitas.

 “Eu venho para Desert e quase não surfo no Point. Mesmo o Grower sendo muito mais perigoso, eu consigo pegar altos tubos só com os meus amigos e isso não tem preço!” - Gabriel Pastori.

O FUTURO

Desert é, sem dúvida, uma das melhores ondas do mundo e esse título pode comprometer seu futuro. Além do crowd, alguns fatores preocupam quem mora e frequenta a região. A sujeira, a falta de saneamento básico e a especulação imobiliária são alguns dos problemas que botam esse paraíso em risco. A cada swell muito lixo é produzido e não existe nenhuma espécie de coleta. A questão do esgoto também preocupa, já que as fossas foram construídas muito perto dos lençóis freáticos, o que contamina a água e gera doenças. É muito comum ver surfistas com infecções no estômago e intestino. Apesar desses transtornos vários turistas estão procurando terrenos para comprar e até uma mansão já foi construída em frente ao pico. Fora de Desert é possível ver o investimento que o governo de Lombok fez no aeroporto e nas estradas. Os moradores sabem que em breve a eletricidade e o asfalto chegarão até a praia e isso não é tão bom quanto parece. O receio da comunidade local é que o desenvolvimento traga grandes hotéis e resorts, o que pode acabar com os negócios locais.

“Esta é uma das três melhores ondas do mundo para mim, junto com Pipe e Teahupoo.”Bruno Santos.

Apesar de todas as especulações, os tubos perfeitos continuarão sempre por lá e a nova geração de surfistas locais terá o privilégio de escolher sempre a melhor onda. Os brasileiros podem até dominar o Grower, porém nunca serão locais de nenhuma praia da Indonésia. É muito comum ver estrangeiros, que moram ou visitam a Indonésia há muito tempo, gritando e brigando como se fossem donos dos picos.

Lembre sempre que somos visitantes e que só pelo fato de poder surfar essas ondas perfeitas já é motivo de gratidão. Imagina se Desert Point fosse no Brasil? Os “locais” dariam até tiro para mostrar quem manda mais! Nossa sorte é que Deus escolheu a Indonésia para ser o destino das ondas perfeitas e o povo faz questão de dividir isso com o resto do mundo. Não se esqueça de respeitar os surfistas locais e estrangeiros, espere pela sua vez, não drope nas ondas dos outros e, o principal, respeite para ser respeitado. Assim sempre seremos bem-vindos e poderemos continuar a viver o sonho da onda perfeita.

“Na única vez que fui para o Point, eu fui rabeado por um local de Pipeline e acabamos brigando na areia. Odeio crowd e por isso agora eu só surfo no Grower, mesmo sendo mais perigoso!” - Stanley Cieslik (sequência abaixo)

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