Melhor surfista brasileira na atualidade, a cearense Silvana Lima é um exemplo em superação. Determinada a voltar à elite do surf mundial, ela abdicou de bens materiais e foi em busca do seu sonho. Após três cirurgias nos joelhos, intermináveis sessões de fisioterapia, Silvana está de volta e recuperada.

Em 2015, após conquistar a liderança do Qualifying Series (circuito de acesso ao WCT), garantiu seu lugar no Circuito Mundial, com boas atuações na perna australiana. Este ano, ela foi convidada para disputar a etapa carioca da WSL, sendo barrada nos minutos finais pela havaiana Carissa Moore, que a derrotou de virada.

Silvana mostra muita garra e determinação dentro d’água. Foto: Cestari/WSL.

Silvana e a sua cadelinha Aloha (da raça buldogue francês) abriram as portar do seu “apê” com vista para as ondas da praia da Macumba, seu atual e mais novo endereço, para uma conversa com a Surfar.

A atleta está ainda mais determinada, confiante e motivada para retornar ao seu lugar ao lado das melhores surfistas do mundo: “E estou aí, firme e forte, em busca do meu objetivo de retornar ao topo do surf mundial, estou na briga e não vou desistir”.

Por Viviane Freitas

Foto: Reprodução Instagram.

Quais as estratégias para as competições deste ano ?

Em 2015, passei todo o ano focada no WSL e em algumas etapas do QS para pontuar, que foi bem corrido. Este ano, vou competir apenas as etapas 6000 que rende mais pontos e vai me ajudar a classificar, como nessa última etapa na Praia do Forte (Bahia) que venci. Já estou focada na etapa do México (Los Cabos Open of Surf) em San Jose Del Cabo, em 07 a 12 de junho, que tem uma direita boa e, quando competi, finalizei em segundo lugar. Depois vou fazer uma surf trip em El Savador, que tem uma onda muito boa para fazer treinar as manobras.

Como está o seu quiver de pranchas? Fechou com algum shaper?

Estou com o John Cabianca que tem pranchas muito boas e está fazendo as pranchas do Medina. Gostei bastante do shape dele. Estou com pranchas específicas para as ondas do QS, mesmo que não passam de 1m, com tamanhos entre 5’4 a 5’6 e têm funcionado bem.

A cearense já está com foco total para os Los Cabos Open of Surf no México . Foto: Poullenot/WSL.

Qual a diferença em competir no QS e no circuito profissional?

No QS, as ondas são menores e tem uma diversidade muito grande de meninas de várias idades e de todos os níveis, que não deixa de ser bem alto, além das surfistas do circuito mundial que buscam pontuação para se manter na elite. É muito legal, porque somos muito competitivas e puxamos muito o limite umas das outras, então ajuda muito a evoluir nas ondas e nas competições.

“Já estou voltando dos aéreos e sinto que vou recuperar logo a minha performance para brigar de igual para igual com as tops”.

Você foi convidada para disputar o Rio Pro mas não avançou na repescagem quando foi superada pela atual campeã mundial Carissa Moore. Como avalia a sua performance?

Eu já esperava ser convidada por conta do meu patrocinador ser o mesmo do evento, mas, mesmo assim, estava com receio desta vaga ir para a Jac (Jaqueline Silva), que é a campeã brasileira. Me senti muito feliz e motivada em competir em casa, com toda essa torcida que nós temos. Mas nos minutos finais da minha bateria com a Carissa, vi que ela pegou uma onda muito boa e poderia pontuar bem. Não deu outra e por pouco não avancei, mas surf é isso, sorte. Essa etapa só me deixou ainda mais fissurada para competir e voltar a disputar as ondas do mundial.

Silvana voando. Foto: Reprodução Instagram/@anacatarinaphoto.

E como está se preparando para isso?

Voltei a morar no Rio e aproveitando a estadia aqui, que é muito melhor para treinar. Divido meus treinos com funcional, orientada pelo preparador físico Thiago Silva, além de natação na Rio Sports, treinamento para fortalecer os joelhos e massagem para soltar o corpo. Também quero fazer mais surf trips.  No início do ano fui ao Equador para pôr as pranchas no pé e entrar no ritmo,antes do QS de Praia do Forte, e deu certo, acabei vencendo e foi muito bom. Acredito e sei que vou chegar muito longe, vim de três cirurgias, mas estou totalmente recuperada, trabalhando o condicionamento físico e muito confiante no meu surf. Já estou voltando dos aéreos e sinto que vou recuperar logo a minha performance para brigar de igual para igual com as tops.

 “…estou aí firme e forte em busca do meu objetivo de retornar ao topo do surf mundial, estou na briga e não vou desistir.”

Você abriu mão de muitas coisas para retornar ao Circuito Mundial. Qual foi a dificuldade em se manter?

Ano passado comecei bem na Austrália, consegui uma nota 10 na Gold Coast e me superar algumas vezes, mas o resultado do Brasil me prejudicou bastante e depois disso comecei a cair. Nas últimas três etapas, no final do ano, não consegui passar do nono lugar, resultados que me levaram a desclassificação.  Mas estou aí firme e forte em busca do meu objetivo de retornar ao topo do surf mundial, estou na briga e não vou desistir.

Foto: Annibal.

Após a etapa do Rio, algumas surfistas profissionais já se mostravam adrenalizadas com a etapa de Fiji. Qual a onda do Circuito Mundial mais te desafia?

Não é que me desafia, mas a que tenho mais dificuldade é mesmo Margaret River porque sou muito leve, além deste pico ter uma onda pesada, um vento muito forte. A prancha tem que ser maior e preciso ter mais força para entrar nas ondas. São poucas as meninas que sabem surfar bem por lá de backside, por exemplo. Eu adoro Fiji e, em 2006, cheguei a conquistar uma nota 10 em um tubo.

Como está conseguindo se manter sem um “patrocínio principal”?

No momento estou bem de patrocínio, não tem adesivo no bico, mas estou com uma boa estrutura para poder investir nos treinos e poder competir com tranquilidade e foco. Os meus patrocinadores estão me dando um bom suporte para pensar apenas em competir e vencer. Acabei de fechar também com uma marca de roupas da Califórnia bem legal. Só tenho a agradecer a oportunidade, mas quem se interessar em agregar é sempre bem vindo.

Para Silvana essa é a hora certa para investir no surf e em novos talentos. Foto: Ana Catarina Teles.

Em algum momento já pensou em ser freesurfer?

Ah, eu não conseguiria ser apenas uma freesurfer, isso não tem a menor graça para mim, quem sabe na aposentadoria (risos). A competição está no meu sangue, desde quando era uma moleca e praticava capoeira perto de casa, no Ceará. Sempre dava um jeito de mostrar o meu potencial, mesmo brincando já queria ser melhor que as minhas amigas. Eu sempre quis vencer, estar no pódio e levantar troféu. Amo sentir aquele frio na barriga antes das baterias, aquela ansiedade em pegar a melhor onda e pontuar. Isso me faz bem, essa sou eu.

 “Amo sentir aquele frio na barriga antes das baterias, aquela ansiedade em pegar a melhor onda e pontuar.”

Além das competições, como você pretende dar retorno aos patrocinadores?

Procuro dar esse retorno através das redes sociais e estou sempre com um fotógrafo, que envia as minhas fotos para divulgação. Tenho usado muito o Instagram e estou amando (risos). É muito legal e divertido ver as pessoas interagindo com as minhas fotos, eles mandam muitas mensagens, me dando apoio, já estou com 55 mil seguidores e receber esse carinho é muito bom. Além disso, tenho investido também no Facebook e Snapchat.

Silvana com Davizinho, também atleta da Equipe Furnas. Foto: Annibal.

O que falta para o surf feminino no Brasil deslanchar?

Eu acredito que vai reagir si! Tenho muita confiança nisso depois da competição da Praia do Forte, que teve uma boa adesão das meninas, um evento com status WQS que deu uma valorizada. A Marina Werneck e o Felipe Freitas estão bem empenhados em lutar pelo Feminino e trazer mais duas etapas. Temos muitas surfistas com potencial, mas não conhecemos porque não há competições, o que é importante para revelar novos talentos. Já estão surgindo alguns nomes da nova geração, como a minha conterrânea Yanca Costa e a Tainá Hinckel, da Guarda do Embaú. Por isso, acredito que o surf feminino não vai morrer na praia.

 “Estou vivendo um bom momento na minha carreira e continuo acreditando que a minha hora vai chegar.”

Quais as dicas você dá para as meninas que sonham em ser uma campeã mundial?

A minha dica para elas é ter foco, determinação, treinar e manter o corpo preparado com uma boa alimentação, preparação física e um bom técnico para um trabalho com imagens. Além disso, não perder tempo com noitadas, investir em surf trips e bons equipamentos, ter uma boa prancha é fundamental. O surf brasileiro está em um bom momento, essa é a hora certa para investir no surf e em novos talentos, precisamos aproveitar este momento.

A atleta segue forte para voltar à elite do surf mundial. Foto: Smorigo/WSL

Como você avalia sua trajetória durante estes 20 anos como surfista profissional? O que mudou na Silvana?

Comecei a surfar aos 12 anos, aos 14 já competia e naquela época havia apenas a Tita Tavares no Ceará, onde morava, que ganhava tudo. Aprendi muito durante todo esse tempo de surf profissional com meus erros e acertos, mas quando seu espírito é jovem você não envelhece. Entrei na elite em 2006, fiquei dois anos fora me tratando de lesões e no total foram nove anos no WCT. Quando olho para trás, vejo o quando evoluí, tando como atleta e até como pessoa. As cirurgias e as dificuldades me ajudaram a crescer mais. Não estou no mesmo ritmo, como eu quero, mas me sinto mais confiante e feliz comigo mesma, pois estou mais forte. Estou vivendo um bom momento na minha carreira e continuo acreditando que a minha hora vai chegar.

Silvana entubando na praia de Ipanema. Foto: Reprodução Instagram/@leonevesrj.