Conheça a história da Maryele, surfista que conhecemos no encontro do Surf Feminino em Movimento na Guarda do Embaú em maio desse ano.

Aos 2 meses de vida a mãe da Mary notou que sua perna esquerda estava ficando torta, então, resolveu procurar um médico. Era o começo de tudo. Após diversos exames e opiniões de médicos de lugares diferentes, como Porto Alegre, Tubarão e Florianópolis (Mary é natural de Criciúma), foi descoberto o que estava acontecendo: Pseudartrose.

Após esse diagnóstico foram feitas verdadeiras peregrinações entre Santa Catarina e São Paulo para mais exames, realização de cirurgias e tratamentos. Tudo para que a Mary pudesse continuar com a sua perna, e continuar matando sua sede por esporte e aventura.

Aos 19 anos, Mary ela descobriu uma pequena bolinha na coxa e outra odisseia começou: era Neurofibromatose. Sempre guerreira e sem baixar a cabeça pra vida, lá foi ela e a família em busca de mais tratamento e todas as saídas possíveis que excluíssem a amputação.

Sucesso! Ao longo da vida Mary foi se engajando em diversos esportes como tênis de mesa, handebol em cadeira de rodas, atletismo (onde hoje ela é profissional) e, até mesmo, o surf, que virou sua grande paixão. Hoje ela usa apenas uma órtese para ajudar com o tônus da perna e possibilitar que ela siga sua vida normalmente.

O “currículo de conquistas” da Mary é de dar inveja:

– 1º lugar no lançamento de dardo e arremesso de peso, e segundo lugar no lançamento de disco em 2011, no PARAJASC;

– 2º lugar no lançamento de disco e dardo, e 3º no arremesso de peso, em 2013 no PARAJASC;

–  1º lugar no lançamento de dardo, 2º no lançamento de disco e 3º no arremesso de peso, em 2014, no PARAJASC;

–  1º lugar no lançamento de disco e de dardo e 2º lugar no arremesso de peso em 2015, no PARAJASC;

– 2º lugar geral dos regionais de atletismo do Brasil em 2012, 2013, 2014 e 2015;

– Tricampeã brasileira de handebol em cadeiras de rodas em 2012, 2013 e 2014!

Sempre apaixonada pelo surf, desde pequena ela dizia que pretendia ser surfista um dia. Apesar de conhecer vários surfistas, o incentivo para a prática do esporte sempre faltou. Porém, em 2009, a primeira oportunidade apareceu quando um de seus amigos a emprestou uma prancha. A Mary mal sabia remar na época, mas mesmo assim sempre teve força de vontade para tentar realizar seu sonho de ficar em pé numa pranchinha deslizando sobre as ondas. Em 2012, ela ganhou sua primeira pranchinha 6.0 e aí os treinos só aumentaram.  Sem conseguir evoluir muito, após várias tentativas ela resolveu deixar a pranchinha um pouco de lado.

Sempre que podia a Mary participava do Praia Acessível, evento que ocorre no verão na praia do Rincão/SC, onde bombeiros e voluntários se juntam para levar deficientes físicos para o mar, dando acessibilidade através de cadeiras anfíbias, entre outras atividades. Foi participando frequentemente dos eventos que o professor de surf Danilo Boss notou o grande interesse da Mary e começou a dar dicas valiosas para ela, além das aulas, onde ela retomou as investidas na pranchinha.

Esse ano, voltando a conversar com um amigo também deficiente físico (que ela conheceu há tempos numa competição de atletismo), descobriu que ele praticava surf adaptado e inclusive participava de campeonatos no Rio Grande do Sul. Em Janeiro ele a convidou para participar de uma competição de surf adaptado em Xangrilá/RS, e lá foi ela! Esse era o primeiro campeonato que participava. Devido aos poucos treinos o resultado não foi muito positivo, porém o campeonato serviu para aumentar muito o desejo de fortalecer o surf adaptado. E a luta começou!

As competições em Santa Catarina começaram e entre uns contatos e outros ela conheceu o grupo de surfistas mulheres BellaSurf, onde encontrou apoio, dicas e contatos dos organizadores de campeonatos. A partir disso a Mary junto com seus amigos conseguiu inserir a modalidade de Surf Adaptado em uma competição em Santa Catarina, onde seu amigo Paulo Ricardo convidou ainda mais surfistas deficientes físicos para participar. Assim surgia o grupo de surf adaptado no Sul do Brasil.

O esporte já tem força no Rio de Janeiro e algumas outras regiões, mas Sul a Mary é pioneira e não mede esforços para fortalecer a modalidade, inclusive criar uma associação de surf adaptado.  É uma modalidade de surf como qualquer outra, porém nos campeonatos atuais são aceitos homens e mulheres nas mesmas baterias. As pranchas são como quaisquer outras e os atletas são avaliados pelos jurados conforme sua capacidade física. Ainda não existe separação de categoria conforme o tipo de deficiência por falta de atletas, porém pode ser uma mudança futura, assim que houver mais gente competindo.

Se você tem interesse em fazer parte desse time de atletas de surf adaptado, quer aprender ou conhece alguém que queira, fale com a Mary pelo facebook https://www.facebook.com/palavradeguria E siga no insta @cardosomaryele Ou se tem interesse em apoiar essa iniciativa com patrocínio ou alguma outra forma de ação, contate o e-mail cardosomaryele@gmail.com

Outro grande exemplo de garra e superação no surf adaptado é o surfista de 11 anos Davi Teixeira, ou Davizinho Radical, como é mais conhecido, que realizou sua primeira viagem ao Hawaii no fim do mês de agosto e já marcou presença no segundo degrau do pódio. O atleta foi vice-campeão da décima edição Duke’s Annual Ocean Fest, evento realizado na praia de Waikiki em homenagem ao grande pai do surf, Duke Kahanamoku. Confira aqui.

Vamos fortalecer essa modalidade no Brasil. O mar é grande e o surf é para todos!

Por Longarina, parceira da Surfar na seção Surf Feminino.