“POUCA COISA ME CHAMA A ATENÇÃO NO SURF DE HOJE”

Dando sequência ao Lado B das Pranchas, matéria sobre modelos de pranchas fora dos padrões competitivos, fomos atrás do homem que estampou a capa da Surfar #44 entubando de biquilha em Nias, Indonésia: o neozelandês radicado na Austrália Dave Rastovich.  A tarefa não foi fácil! ‘Rasta’ estava a bordo de uma embarcação em meio ao Oceano Índico, mas os esforços conjuntos da nossa produção junto à da Billabong, patrocinadora do surfista, deram resultado. 

Por Rômulo Quadra.

“As habilidades dos surfistas modernos são fantásticas, só não me interessam.”

Dave exibe uma alaia, prancha de madeira e sem quilha.

Escolhemos uma foto sua surfando de biquilha em Nias (Indo) para a capa da nossa edição anterior. Por que você optou pelas biquilhas naquele mar?

Eu surfo com biquilhas 99% das vezes. Pranchas com três quilhas proporcionam muito arrasto e atrapalham o meu surf. Também gosto das quadriquilhas, principalmente quando o mar sobe. As monoquilhas são muito ariscas para mim. Em toda a minha vida, eu só tive duas monoquilhas que funcionaram bem comigo.

Que influências que te inspiram em relação ao design de pranchas,?

Basicamente, eu sigo os meus sentidos quando o assunto é surf e escolha do equipamento. Não gosto de pranchas que me dão muito trabalho. Afinal, surf tem a ver com diversão, não é? Não gosto de pranchas que precisam de muito trabalho para ganhar velocidade ou para deslizar sobre as ondas. Se as ondas estiverem muito pequenas, eu uso um longboard ou uma pranchinha bem pequena, gordinha e com o fundo reto, assim ainda poderei relaxar e curtir.

“Eu sigo meus instintos quando o assusto é surf.” – Dave Rasta. Foto: Divulgação Billabong.

Falando sobre performances, algum surfista que te inspira?

Na verdade, eu me divirto assistindo filmes antigos de surf australianos, principalmente os datados entre 1968 e 1972. Neles existe uma sensação de leveza, como se entre cada curva feita pelo surfista houvesse um espaço e tempo maior que nos dias de hoje. Isso acontecia antes dos leashes e das pranchinhas serem inventadas e do surf passar a ser algo bem mais agressivo, tendo muito mais a ver com as vontades do surfista do que com uma dança entre o homem e a onda. Pouca coisa me chama a atenção no surf praticado hoje, principalmente pela falta de naturalidade no estilo predominante. Existe muito pouco espaço entre as manobras e há também uma baixa apreciação da onda.  Mas que fique bem claro que esta é só a minha opinião. As habilidades dos surfistas modernos são fantásticas, apenas não me interessam. 

“Eu me divirto assistindo antigos filmes de surf australianos, principalmente os datados entre 1968 e 1972. Neles existe uma sensação de leveza…”

Qual é a curtição de surfar pranchas com outlines completamente diferentes?

Surfar é como música e as pranchas são como os instrumentos musicais. Existem milhões de estilos diferentes.  O Tour mundial, por exemplo,  pode ser comparado a música Pop que agrada às massas. Eu prefiro um tipo diferente de sintonia. Não há nada de errado com a música Pop, muitas pessoas a amam. Só que eu prefiro batidas irregulares e expressões mais psicodélicas.

Rasta surfando de biquilha foi um dos destaques do swell histórico (2015) que fez Nias bombar. Foto: Pedro Tojal.

Você tem um modelo de prancha favorito?

Eu amo qualquer prancha que me mantenha flutuando sem precisar de muito esforço. Agora, o que mais me incomoda nas pranchas de surf são os materiais tóxicos utilizados na fabricação da grande maioria delas.

“Surfar é como música e as pranchas são como os instrumentos musicais.” Rasta de monoquilha e rasgando com a mão na borda. Foto: Nick Liotta.

Qual é a prancha mais inovadora do seu quiver?

Eu tenho surfado com duas pranchas idealizadas pelo George Greenough. Inclusive, na capa da Surfar #44 eu estava usando uma delas. A tecnologia empregada no design desses modelos tem a ver com reduzir o arrasto na onda, então se produz mais velocidade com menos esforço. Além do mais, as biquilhas são perfeitas para tubos. As quilhas são grandes, por isso agarram na parede da onda, inclusive numa buraqueira, e a maior parte de todo o volume da prancha se mantém fora d’água. Isso faz com que o surf aconteça de forma suave e menos trabalhosa.

“Em toda minha vida, eu só tive duas monoquilhas que funcionaram bem comigo.” – Dave. Foto: Nick Liotta.

Você surfa com pranchas inspiradas nos designs antigos?

Acho que toda prancha moderna sofre influências dos shapes antigos. Mas a amizade com o George Greenough tem afetado bastante a escolha do meu equipamento, por toda a sabedoria e experiência que ele me passa. Dick Van Straalen é outro cara que divide muito conhecimento comigo e produz shapes lindos.

À vontade de bermuda e longboard na valinha. Foto: Divulgação Billabong.

Você acredita que as pessoas deveriam experimentar mais?

As pessoas precisam se divertir mais! A única regra no surf é “seja gentil com o próximo”. Você pode surfar com a porta de um carro e ficar amarradão… A única coisa necessária é ser gentil e ter um coração caridoso dentro d’água.

“O que mais me incomoda nas pranchas de surf são os materiais tóxicos utilizados na fabricação da grande maioria delas.”

Dave na capa da Surfar #44 entubando de biquilha em Nias, Indonésia. Foto: Pedro Tojal.

O que mais te agrada no surf?

Os tesouros no surf são infinitos. Eu tenho prazeres muito pessoais quando surfo e o melhor é que eles são únicos. Você e os seus leitores buscam os seus próprios tesouros quando surfam e eles pertencem apenas a vocês. Se você gosta de surfar como se fosse um esporte, vai curtir a sensação que está buscando. Agora, se acredita que o surf te proporciona uma experiência espiritual, você irá aproveitar isso de forma profunda. Nenhuma ideia formada sobre o surf é mais importante do que outra. Enquanto agirmos de forma gentil com o próximo, poderemos nos expressar livremente.

 

 

 

 

 

Sequência da capa da Surfar que o Rasta fez surfando de biquilha no maior swell da temporada de 2015 na Indonésia. Fotos: Pedro Tojal.