FAMÍLIA CHUMBINHO

A melhor coisa que pode acontecer na vida de uma criança é ter um pai surfista e uma mãe coruja. Se a mãe fosse surfista, não teria ninguém para preparar aquele café reforçado e filmar as sessões de surf. E se o pai não fosse surfista, os filhos não poderiam perder aula para surfar um mar perfeito. Lucas Yan e João Vitor deram a sorte da vida quando nasceram do encontro entre Gustavo Chianca e Michelle Cabral. Os “Chumbinhos”, como são conhecidos, viajam o mundo afora atrás de campeonatos e das melhores ondas. Nossa equipe já acompanhou o dia a dia deles durante algumas trips e descobrimos por que essa é uma das famílias mais “surf” do Brasil.

Texto e fotos por Pedro Tojal

Gustavo não se formou em faculdade e mesmo assim é um empresário de sucesso. Em vez de dedicar seu tempo às salas de aula, ele preferiu trabalhar e curtir a vida. Aos 19 anos, ele abriu sua empresa de roupas e acessórios infantis e hoje já emprega mais de 100 pessoas. Por ter seu próprio negócio, sempre conseguiu tempo para surfar, andar de moto e saltar de paraquedas. Além dos bens materiais conquistados ao longo do tempo, Gustavo conquistou o bem mais precioso que um homem pode ter: uma família unida. Seus dois filhos, Lucas “Chumbinho”, de 20 anos e João Vitor “Chumbinho”, de 15 anos, têm como ídolo máximo o pai e, diferente da maioria dos adolescentes, eles sempre querem estar em família (se for dentro d’água melhor ainda). Os dois são chamados de Chumbinho, o mesmo apelido de infância do Gustavo, que agora é conhecido como Chumbão. “Penso com minha humilde inteligência que a vida é um trabalho em equipe e ninguém consegue se projetar sozinho. Faço isso na minha família. Seria muito mais fácil eu não viajar e teria várias justificativas como: não posso me ausentar da empresa, não tenho dinheiro, não tenho tempo… Ficar com a família durante 30 dias juntos em alguns momentos é bastante estressante, porém depois vale cada minuto. Os momentos vividos ali fazem uma história maravilhosa, pois são muitas as adversidades vividas juntos. Surfar com meus filhos e ver eles se divertindo, evoluindo e sendo reconhecidos vai muito além dos meus melhores sonhos”, fala Chumbão.

Gustavo Chumbão, acostumado com as ondas de Itaúna, mostrou todo o seu “know-how” nas esquerdas indonésias. Enquanto isso, Michelle gravou todas as sessions da família. Parceria fora e dentro d’água.

Lucas Chumbinho, apesar de não ter uma bagagem muito grande em eventos de surf, já tem contabilizado 12 trips internacionais no seu currículo. Nessa última, ele surfou com o pai e o irmão as perfeitas esquerdas de Desert Point.

Michelle foi criada na Região dos Lagos e Chumbão passou sua infância em Campo Grande, zona oeste do Rio. Na adolescência, Gustavo se mudou para Saquarema e aos 20 anos conheceu Michelle, que na época pegava onda de bodyboard. Tiveram seus dois filhos, que aprenderam a surfar em Saquarema com dois anos de idade, usando boias de braço e coletes infláveis. Criaram Lucas e João durante a semana na Barra da Tijuca e nos finais de semana em Saquarema. Desde então, eles enfrentam qualquer tipo de condições de mar.

João Vitor não se intimidou com a bancada rasa do Grower, botou pra dentro e ganhou destaque do dia.

Com 11 anos, João Vitor foi para o Hawaii com o irmão e o seu treinador Raoni Silva, freesurfer profissional. Diferente dos garotos da sua idade, que só queriam surfar Rocky Point e V-Land, Chumbinho só falava de Pipe, Off The Wall e Waimea. Raoni tentava segurar o moleque, botar ele para surfar ondas mais “lights”, mas ele só queria as bombas. Depois de tomar vários “nãos” para cair nos picos mais cabulosos, João Vitor resolveu ignorar os avisos do treinador, pegou uma 7’8 do irmão e fugiu sozinho para Waimea. Sentiu de perto toda a pressão da “The Bay”. Tomou uma bronca tão grande que nunca mais desrespeitou Gustavo. Inclusive o que não falta nessa família é respeito. Várias vezes, eu escutei o Chumbão conversando com os filhos sobre a importância da escola e os principais valores da vida: respeito, união, saúde, amor e trabalho. “Em relação aos estudos dos meninos, colocamos isso sempre em primeiro plano, entendo como obrigação prioritária dos pais. De certa forma, acabo usando o surf como moeda de troca, pois sem bons resultados na escola nada de surf trips internacionais, principalmente para o Hawaii, que é a nossa preferência,” diz o pai. Além de ótimos surfistas, eles estão se transformando em homens prontos para encarar o mundo. O Lucas é mais tímido e o João é um “pestinha”, mas apesar das diferenças eles se admiram e são muito companheiros.

Na mesma temporada havaiana de 2012, aos 11 anos de idade, João Vitor pegou altos tubos, fez muitas fotos e deixou muito marmanjo em combinação. Aproveitava o fato de ser apenas uma “criança” para impregnar geral no pico. Remava de um lado para o outro, rabeava e depois fazia cara de anjinho. Quem não conhece até acredita… Na época, chegou a levar o apelido de “o pestinha do surf”.

 

João Vitor mostrando seu surf moderno e de linha. Crédito: Arquivo Pessoal.

Durante a temporada Indonésia 2014, a Surfar viajou junto a eles para Desert Point em um dos maiores swells da temporada. No maior dia somente o Lucas pôde surfar, já que os pais acharam melhor que o João não se arriscasse. As ondas passavam dos 10 pés, a maré estava seca e a corrente muito forte. Seria um grande risco para uma criança de 13 anos se aventurar naquelas condições, então eles vetaram e João obedeceu. Da areia, viu o irmão dar um show de surf e ser destaque do swell, tendo surfado umas 20 ondas perfeitas no “point” e mais outras 10 insanas no Grower. Essa session só serviu para deixar João Vitor mais instigado. No dia seguinte, o mar diminuiu um pouco e “o pestinha do surf” estava com a energia máxima. Os pais deram o aval e o moleque ficou 10 horas dentro d’água pegando altos tubos de backside sem a mão na borda, o que lhe rendeu a capa da edição 38 da Surfar em agosto de 2014. Nos dois dias de swell, os irmãos se destacaram no meio do crowd e sempre que saíam do mar eram parabenizados pela galera na areia.

 

 

Lucas Chumbinho marcou presença e fez bonito nesse swell gigante que quebrou na Indonésia. Já João Vitor não recebeu “passe livre” e ficou na areia torcendo para o irmão sair desse tubão.

Apesar das viagens de free surf, os Chumbinhos têm o mesmo sonho: serem competidores no WCT e campeões mundiais de surf. Lucas já fez 12 viagens internacionais para treinar. Para ajudar a realizar esse objetivo, Chumbão criou a equipe Triple Lead, que significa triplo chumbo. O objetivo dele é proporcionar treinamento, viagens e equipamento para que seus filhos consigam atingir seus sonhos. “O Lucas só fez viagens para treinar, competição não, porque eu sempre priorizei a escola, os estudos. Agora é que vamos dar uma investida de dois a três anos no surf profissional. Porque a única maneira do cara se projetar a nível WCT é pelo WQS. Então, a gente vai botar ele para correr umas etapas e, se ele se der bem, vamos dar sequência na carreira dele”, contou Gustavo nessa trip em 2014.

Lucas Chumbinho em Desert Point, Nias, Waimea e por último pegando a melhor da série no Grower.

Além de representar o apelido da família, a Triple Lead também tem relação com os três esportes que Chumbão pratica: surf, motocross e skydive. Com tanta adrenalina, essa equipe deveria se chamar “Four Lead”, já que Michelle tem nervos de ferro para enfrentar tantas emoções. Qual a mulher que aguenta ver o marido pular de um avião, dar rodopios de moto e ainda ver os filhos surfando ondas enormes e perigosas?! Se os meninos serão campeões de surf ou irão para faculdade, só o futuro irá dizer, porém uma coisa é certa: a experiência de vida que os quatro estão tendo é um privilegio cada vez mais raro de se ver nas famílias de hoje.

 João Vitor, na época aos 13 anos de idade, se tornou o surfista mais novo a fazer uma capa na Surfar.