FICO – SURFISTA, EMPRESÁRIO, BATALHADOR INCANSÁVEL

Uma história que é uma saga de altos e baixos, perseverança e coragem. Raphael Levy, mais conhecido como Fico,seu apelido de infância, virou marca de surfwear e acessórios de primeira linha. Por trás da marca está Raphael, o garoto que se apaixonou pelo surf na praia de Pitangueiras, Guarujá, no início dos anos 70. Foi um dos fundadores do Circuito Brasileiro de Surf Profissional que nasceu em 1987. Patrocinou quase uma centena de atletas de surf e bodyboard. Viajou milhares de quilômetros pelo Brasil e pelo mundo atrás das ondas. Enfrentou e ainda enfrenta uma grave doença, mas nem por isso parou de batalhar pelo surf brasileiro, pelo meio ambiente, por um mundo e uma vida melhor. E para homenageá-lo no mês de seu aniversário, a Surfar traz a trajetória desse grande nomo do nosso esporte.

Por Reinaldo ‘Dragão’ Andraus

Com a nova geração do surf brasileiro na Praia de Maresias, seu refúgio desde a adolescência. Crédito: Arq. Pesssoal.

O INÍCIO NO GUARUJÁ

Imagine um ambiente praticamente utópico para jovens adolescentes. Uma praia de água limpa e ondas boas para o surf quebrando (no mínimo) 350 dias por ano. Uma faixa de areia de cerca de um quilômetro, com prédios de 15 andares perfilados de frente para o mar. As areias das praias de Pitangueiras e das Astúrias eram o playground durante o dia. À noite, um centrinho com sorveterias, lanchonetes, restaurantes, lojas e um cinema em que Endless Summer era um dos hits que mais passava nas matinês. Tudo isso em uma ilha em que o único acesso era através de balsa. Segurança total! Esses garotos e garotas podiam ficar jogados livres, madrugada adentro, em vastos apartamentos com varandas de frente. Tudo rolava solto, principalmente as ondas. Muitas vezes os pais estavam em São Paulo e deixavam os apês na mão da galera. Uma festa que tinha o auge nos meses de verão, mas continuava nas férias de julho e se eternizava por todos os finais de semana e feriadões do meio do ano durante os meses de aulas.

Fico ao lado de Zé Galinha rumo ao Nordeste, 1983. Crédito: Zé Augusto Pereira.

Todo mundo conhecia todo mundo. Ninguém precisava de carro, estava tudo ali. Um grupo de amigos coeso, com uma ligação selada pelo atrativo especial do surf foi se formando. Da vida de diversão e bagunça descomprometida na adolescência, esses garotos evoluíram para homens e a paixão pelo surf nunca abandonou uma boa parcela deles. Alguns viraram empresários de surfwear e ajudaram a moldar a história do surf brasileiro, a moda, os hábitos e costumes. Raphael Levy é um desses garotos que tem uma história singular. Um de seus grandes amigos de infância foi Alfio Lagnado, que mais tarde se tornaria um grande empresário do surfwear.

 “No início de 1977, tive a primeira sensação que poderíamos ser profissionais, aconteceu um campeonato em Itajaí, patrocinado pela Gledson.Começou em Atalaia e acabou na praia de Navegantes. Eu competi nesse campeonato, foi o primeiro que participei.”

ALFIO – “Fico e eu somos amigos desde criança do Guarujá.  Começamos a pegar ondas praticamente juntos. Eu lembro muito bem,  ganhei uma prancha de fibra antes. Ele andava naquelas pranchas de isopor. E é impressionante porque a gente já surfava com prancha de quilha e o Fico acompanhava a gente com a ‘planonda’, mas ia lá fora. Essa turma de São Paulo, que ia para o Guarujá, eram os caras mais abastados e os surfistas estavam dentro dessa elite, uma galera muito reduzida. Na verdade, nossos pais são da mesma procedência, judeus egípcios que vieram praticamente na mesma época para o Brasil. Eles já se conheciam lá no Egito antes de vir para o Brasil, pouco, mas já se conheciam. Eram de uma pequena colônia que falava francês lá. O pai dele jogava basquete no time dos meus tios. E quando a gente começou a trabalhar no mercado foi praticamente junto, fornecendo para a OP (Ocean Pacific, marca  de surfwear que estourou nos anos 80) . Chegamos até a fazer uma sociedade para fornecer para o Sidão da OP. Depois cada um tomou o seu caminho.”

Nos anos 80 em Turtle Bay, North Shore. Crédito: Arq. Pessoal.

Raphael nasceu em São Paulo, em novembro de 1960, e tem dois irmãos: Cláudio de 1963 e Monica que nasceu em 1967, sócios na empresa. E desde muito jovens frequentaram o Guarujá.

FICO – “Até os meus 12 anos, surfei com prancha de isopor no Guarujá. Minha primeira prancha de surf foi em 1972 com o Alfio, meu grande amigo. Desde os cinco anos de idade sempre fomos muito amigos, como irmãos. Nossa diferença de idade é de um mês. Nós carregávamos aquele baú, uma prancha longboard grossa e pesadona. Eu e o Alfio íamos para as Astúrias com um carregando em uma ponta e o outro segurando na outra. Eu quebrava três pranchas de isopor por dia, até que o Alfio fez a cabeça dos meus pais e acabei comprando a minha primeira prancha com 12 anos. Comecei no verão de 72 para 73 e evolui rápido.”

Sempre à vontade no mar.  Crédito: Levy Paiva.

ALFIO - “O Fico sempre foi muito fissurado e intenso nas coisas. Ele era forte para caramba. Ainda é! E a gente era muito bagunceiro, vida de praia. Saíamos de casa de manhã e voltávamos de noite. Era futebol, confusão, bagunça, surf… Acaba que até hoje ainda vamos para Maresias todos os finais de semana e a gente está sempre se trombando, somos muito amigos há mais de 40 anos.”

VIAJANDO PARA SURFAR NO SUL

Lançamento do Fico Festival, 1987. Crédito: Arq. Pessoal.

FICO – “No final de 1976, Alfio e eu tínhamos 16 anos e pegamos autorização com nossos pais para ir até Imbituba de ônibus. Só que nós acabamos descendo na estrada e andamos não sei quantos quilômetros para chegar à praia da Vila. No hotel que nós ficamos tinha aquele corcunda, parecido com o de Notre Dame, não tinha luz e ele andava com uma vela. Ele tinha aquela coluna com uma bola que parecia uma corcova de boi, andava pelo corredor e a gente via a sombra dele. No início de 1977, tive a primeira sensação que poderíamos ser profissionais, aconteceu um campeonato em Itajaí, patrocinado pela Gledson. Começou em Atalaia e acabou na praia de Navegantes. O Paulinho Tendas, que era o nosso ídolo, ganhou. Eu competi nesse campeonato, foi o primeiro que participei.”

Surfando na Costa Rica no início dos anos 2000. Crédito: Levy Paiva.

ALFIO – “O mais louco é que fomos de ônibus, eu, ele (Fico) e oito meninas. Na verdade, eu tinha umas primas e todo mundo ia para o Sul naquela época. Os bonitões iam para o Sul e as meninas queriam ir atrás e precisavam de um gancho para convencer as mães para ir. Elas falavam: ‘Estamos indo junto com o Alfio e o Fico’. E elas nem estavam indo com a gente, estavam indo atrás dos caras mais velhos. Mas elas colaram na gente e fomos juntos. Chegamos lá como reis. Imagina! Chegar lá no Sul, ‘Terra de Marlboro’,  e aparecer eu e o Fico com oito baita gatas. Fomos de ônibus, ninguém tinha carro. Parou lá na entrada de Imbituba e íamos a pé. Às vezes pegávamos um ônibus até aquele hotel de cima (não o Jangadeiro), mas a gente passava o dia no Jangadeiro. epois fomos para aquele campeonato que o Paulo Tendas ganhou a categoria principal e o Jefferson Cardoso ganhou a Junior. Em 1977 foi uma baita festa para os paulistas, porque, na verdade, os cariocas dominavam a cena. Imagine! O Paulinho era bom pra caramba e o nosso ídolo. Vimos o Paulinho ganhar dos cariocas em um campeonato grande, o Daniel Friedmann ficou em segundo, o Rico também estava lá, muita gente boa.”

Contemplando o mar do Guarujá com uma prancha Stinger monoquilha nos anos 70. Crédito: Arq. Pessoal.

TRABALHANDO COM SURF 

Fico prestou vestibular para Administração de Empresas por duas vezes. Os esforços foram em vão, o surf era a sua vida e consumia o seu cotidiano. A solução encontrada pelos pais foi enviá-lo para a Califórnia com o objetivo de aprender inglês e quem sabe amadurecer longe do conforto de casa. Quando imaginamos a costa oeste dos Estados Unidos, logo nos vem à cabeça as praias badaladas e aquelas ondas longas e perfeitas. Mas o destino de Raphael Levy foi bem diferente: a pacata cidade de Redlands, no condado de San Bernardino, que fica a algumas horas da praia mais próxima. Quatro meses e meio depois, Fico estava de volta, sem saber formular uma frase em inglês e decidido a viver de surf.

De backside em Playa Hermosa, Costa Rica. Depois do susto inicial da doença, Fico voltou a surfar com desenvoltura. Crédito: Levy Paiva.

Depois de um breve estágio na fábrica de malas do pai, montando caixas de papelão, Fico também aprendeu o que era uma nota fiscal, duplicata, mas não era para aonde apontavam seus anseios, bateu a vontade de viver perto das ondas. O pai emprestou o apartamento do Guarujá, mas cortou a mesada.

FICO – “No início de 1980, eu fui morar no Guarujá e foi aí que o Sidão me deu a oportunidade de ser o representante da OP para Santos e todo o litoral paulista. Nunca fiz faculdade. Morei no Guarujá durante um ano. Começava a década de 80 e o mercado do surf prometia. Eu não tinha carro, ia até a balsa. Atravessava com as sacolas da OP e ia vender. A primeira loja que comprou os produtos foi a Rony Surf, em Santos.    Eu vendi e ganhei o maior dinheiro da primeira vez, mas depois percebi que não iria mais ganhar muito, pois não havia muitas lojas de surf. O que eu fiz? Montei uma loja dentro da Faculdade Santa Cecília. Achei um caminho mais fácil, que era vender direto para o público. Aí eu entrei na Faculdade Santa Cecília com o Zé Galinha e o Zé Augusto (Cabelo) da Natural Art, eles trabalhavam para mim e montamos uma loja dentro da escola. Na sexta-feira, eu chegava em São Paulo na sede da OP com um bolo de dinheiro e dava para o Sidão.”

Anos 90, o grupo de brothers na Costa Rica. Agachados: Tinguinha Lima, Amaro Matos, Kias de Souza (Fico), David Husadel e Picuruta Salazar. De pé, nas pontas: os jornalistas Dandão Costa Netto e Adrian Kojin, com os empresários Ermínio Nadin, Zé Roberto Rangel, Fico, Sidão Tenucci e Zezinho Rego. Crédito: Arq. Pessoal.

O início dos anos 80 foi uma fase de grande crescimento para o mercado de surf no Brasil. Produtos inovadores apareciam e as carteiras emborrachadas foram um grande hit. Sidão precisava de produção. Fico e Alfio logo usaram a estrutura das fábricas de seus pais para produzir para a OP. Tudo que era fabricado vendia. Alfio fazia bermudas na confecção de sua mãe. Fico aproveitou o know-how da indústria de seu pai, que produzia as malas Samsonite no Brasil, para fazer umas carteirinhas revolucionárias.

 “Meu pai me colocou para fora de casa quando eu decidi viver do surf. Eu nunca mais pedi dinheiro para o meu pai depois daquela época.”

FICO – “Meu pai me colocou para fora de casa quando eu decidi viver do surf. Foi aí que fiquei morando no Guarujá, só que ele acreditava que eu iria voltar em três meses, mas fiquei um ano. E eu nunca mais pedi dinheiro para o meu pai depois daquela época. A única força que ele me deu foi quando voltei para São Paulo e falei que queria fabricar carteiras. Foi meu pai quem me falou que tinha esse fornecedor com um material emborrachado que ninguém conhecia. Era novo e ele fornecia para a fábrica de malas do meu pai. Como eu não tinha razão social, comprava a matéria prima pela empresa do meu pai, mas pagava todas as duplicatas. Eu pagava por peça para um ex-costureiro do meu pai e ele que pagava as funcionárias. Pegava o carro e ia até o bairro de Sapopemba. Comecei com uma máquina de costura, depois duas, três… Até que virei o ‘rei’ da carteirinha emborrachada. Fazia nas cores verde-limão, laranja… Montei a primeira loja dentro do meu apartamento.”

Show room da marca em São Paulo, 1985. Crédito: Arq. Pessoal.

A MARCA FICO 

No verão de 1982 para 83, Raphael percebeu que era o momento de abrir o seu próprio negócio. Um pouco antes, o Sidão, sentindo o tino comercial e o talento do “garoto”, havia convidado Fico para ser o gerente de uma das lojas OP. Foi o momento em que a rede de lojas começava a se expandir para os shoppings. 

FICO  “Falei para ele que não queria ser gerente de loja nenhuma, eu queria ser dono do meu próprio negócio. Como tive a vivência de vender as carteiras OP, aquelas de nylon que era moda, eu decidi desenvolver uma carteira com um material diferente, que eram aquelas emborrachadas. Fiz uma proposta de colocar 100 carteiras dentro da pronta entrega dele lá na Av. Bandeirantes e, se não vendesse em um mês, poderia me devolver tudo que eu pagaria ele de volta. Só que de 100 virou 1.000 e de 1.000 virou 3.000 e chegou a 10.000. Só que infelizmente aprendi também com meus próprios erros, que a gente não pode só deixar os ovos na mesma cesta. Foi um erro meu achar que poderia viver eternamente dependente da OP e teve um momento em que tive de dar dois passos para trás. Foi aí que surgiu a marca Fico. Esse que foi o começo do mercado mesmo. O Sidão foi o nosso professor. Muita gente trabalhou com o Sidão e ele  foi abrindo o mercado para todos.”

Fico com o amigo e mentor, Sidão da OP. Crédito: Arq. Pessoal.

Na verdade, o Sidão era um dos mais velhos de uma turma de surfistas do Guarujá que viraram empresários. O Fernando e o Zezinho Rego começaram com a Lightning Bolt e depois registraram a Quiksilver, Ermínio tinha a Tangerina e depois a Sundek, Zé Roberto Rangel começou com a Primo e partiu para a Town & Country, o Dany Boi foi sócio do Zezinho e do Fernando na Lightning Bolt, só que até antes da OP, Dany cortou os primeiros calções de surf na fábrica da mãe do Alfio, eles são primos. No início da década de 80 muitos trabalhavam para suprir a demanda da líder de vendas, a OP. Alfio fazia bermudas e mochilas. As carteiras eram feitas na fábrica do pai do Fico.

POR QUE FICO?

FICO – “O cara que desenhava para a OP, o meu amigo Douglas, que fez aquela gaivota no logo da OP, foi quem me falou: ‘Você é um cara conhecido, por que você não abre a marca Fico? Todo mundo vai gostar.’ Ele desenhou aquele meu primeiro logo que tinha um arco-íris. Foi ele quem me ajudou a fazer a marca e também ajudou o Alfio com a Hang Loose. Só que eu fui o louco, posso dizer, como marca com o próprio nome. Foi o trabalho mais difícil que tive na minha vida, pois eu não tinha uma Quiksilver, uma Lightning Bolt, OP… Eu não tinha referência de marca nenhuma, então tive de criar a minha própria marca. Eu e o Alfio tivemos a ideia juntos. Só que para mim foi pior porque Hang Loose era um nome internacional, mesmo sendo nacional, mas eu, Fico, era difícil. Ainda em 1981, eu registrei a marca Fico. Já existiam as marcas Rico e Tico, só que eles não levavam a sério. Para você ter uma ideia, hoje a gente não está só no Brasil, estamos no mundo inteiro.”

Fico com Picuruta em Hermosa, Costa Rica, 2003. Crédito: Levy Paiva.

O NORDESTE E A ABRASP

Fico sempre teve uma ligação forte com o Nordeste brasileiro. Foi por isso que quando o Circuito ABRASP foi criado, em 1987, ele elegeu a praia de Stella Maris, na Bahia, para realizar a penúltima etapa do circuito inaugural. Mas como começou essa relação com o Nordeste?

Momentos do Fico Surf Festival na praia de Stella Maris na Bahia. O evento aconteceu em 1987, 88 e 89, um marco na história do surf brasileiro. Crédito: Arq. Pessoal.

FICO – “Naquela época, as oportunidades eram muito maiores do que hoje. Saí de São Paulo e enchi meu carro de mercadorias rumo ao Nordeste. Fomos Zé Galinha, Zé Augusto (Cabelo) da Natural Art e eu até Fortaleza de carro. Foi aí que eu conheci toda a região e senti o potencial. Imagina, poder viajar, conhecer as praias e vender meus produtos! Nas duas primeiras vezes fui vendendo as carteiras de praia em praia. Na primeira estava com eles, na outra vez eu fui sozinho em uma Saveiro cabine dupla que montei. Ela era alta, toda camuflada. Eu vendia tudo sem nota, trocava por calções. Se os guardas me paravam, eu dava carteirinhas para eles. Nessa época, eu troquei uma prancha Hot Gust, shape do Paulo Rabello, por um terreno na praia da Pipa. Tenho o terreno até hoje. Isso foi em 1982. Ninguém ia para lá. É lógico que o Nordeste ficou no meu sangue. Acho que o grande segredo da Fico foi eu ter me apaixonado pelo Nordeste e ter feito tudo por lá. Fui umas sete a oito vezes para o Nordeste antes de fazer o campeonato Fico Surf Festival. Depois eu ia de avião. Eram 5.000 quilômetros, mas de carro fui apenas nessas duas vezes. Naquela época era sem GPS, não tinha celular, nada, você ficava ao Deus dará. Para que ninguém nos roubasse de noite, eu dormia com uma faca dentro do carro e os caras dormiam do lado do carro para tomar conta do nosso estoque.”

Com Teco Padaratz comemorando os 30 anos da marca Fico. Crédito: Arq. Pessoal.

Em 1986 começou a ser pensado o formato para um Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Já fazia 10 anos que o circuito mundial acontecia, o Brasil havia voltado a participar dele com o Hang Loose Pro Contest de 1986. Um grupo formado por empresários, organizadores de eventos e atletas começou a se aglutinar. O circuito de 1987 foi montado com cinco marcas e cinco eventos de empresários\surfistas apaixonados pelo esporte, com o desejo de fazer acontecer.

“O grande segredo da Fico foi eu ter me apaixonado pelo Nordeste. Fui umas sete a oito vezes antes de fazer o campeonato Fico Surf Festival. ” 

O campeonato de abertura já existia, era o OP Pro, de Sidão, realizado na Joaquina. Zezinho e Fernando organizaram a etapa dois no Guarujá, o Lightning Bolt rolou no pico do Monduba, em Pitangueiras; em Ubatuba o tradicional campeonato de julho havia sido assumido pela Sundek, de Ermínio Nadim desde 1985; Zé Roberto Rangel da Town & Country fechou o circuito em Saquarema; e Fico ficou com a única etapa do Nordeste na Bahia.  

Augusto Saldanha, campeão de longboard, hoje trabalha no marketing da Fico com Raphael. Crédito: Arq. Pessoal.

ALFIO – “Eu participei ativamente da fundação da ABRASP, muito, porque na verdade as pessoas se reuniram durante o campeonato Hang Loose de 1986. A primeira semente foi plantada ali porque todo mundo estava lá na praia. Foi um momento especial do surf, éramos todos amigos e teve uns três cariocas que participaram: Bocão, Rosaldo e  Daniel Friedmann. Em encontros e papos no mar e na praia foram se delineando as coisas para fazer o circuito brasileiro. Aí teve uma reunião no Hotel Maria do Mar, em Florianópolis, com os empresários paulistas e todos os cariocas. Bebemos, brindamos… vamos fazer. Foi um momento muito forte e depois se seguiram reuniões na sede da OP em São Paulo. O Hang Loose era até para ser uma etapa DUPLO AA porque a premiação era muito maior que a do brasileiro, mas problemas políticos atrapalharam o que poderia ter sido uma sexta etapa.”

 “Fui para uma praia que não tinha nada e montei uma das maiores estruturas, até comparando com os campeonatos mundiais da época.” 

FICO –  “A ABRASP foi fundada com esses cinco empresários. Fizemos uma reunião na sede da OP, o Paulo Lima (Revista Trip) estava presente e foi o cara que mais ajudou a gente. Nós montamos a nossa associação e ficamos como fundadores, criamos o circuito, cada um escolheu uma etapa. Eu fui o único que escolhi o Nordeste, todos os outros ficaram no Sul e Sudeste do país. Peguei o Nordeste porque eu acreditava que lá era o futuro do surf brasileiro. Como eu já havia passado pelas praias e conhecido vários surfistas, sabia que tinha um potencial, mas que ainda não era explorado, então decidi arriscar. Fui para uma praia que não tinha nada e montei uma das maiores estruturas, até comparando com os campeonatos mundiais da época. Começamos com um campeonato amador e profissional, masculino e feminino, que incluía o bodyboard. Depois veio a quarta etapa da ABRASP. Foram 15 dias de campeonato, com mais de 60.000 pessoas na praia.”

Piu Pereira, um dos seus atletas patrocinados que chegou ao WCT. Crédito: Arq. Pessoal.

Ao longo dos anos, Fico patrocinou quase uma centena de atletas, entre surf e bodyboard, chegou a produzir uma das primeiras pranchas modernas de bodyboard no Brasil. Glenda Kozlowski, que depois se tornaria a primeira campeã mundial, foi forjada nos eventos Fico Festival em Salvador. A lista de atletas de ponta patrocinada pela Fico é enorme: Picuruta, Felipe Dantas, os irmãos Matos do Tombo, Rodrigo Rocha, Saulo Fidalgo, Tinguinha, bodyboarders Neymara Carvalho, Kiko Pacheco (que faleceu) e também o campeão brasileiro de longboard Augusto Saldanha, que hoje trabalha no marketing da Fico.

Fico em dezembro de 2014 no Hawaii feliz com sua gun, pin tail, shape de Dick Brewer. Crédito: Arq. Pessoal.

BAQUE ASSIMILADO COM CORAGEM E LUTA

Em meio aos eventos FICO FESTIVAL na Bahia, para os quais foi levada uma estrutura gigante desde São Paulo, de caminhão, Raphael é pego de surpresa por uma doença pouco conhecida na época. Os médicos não conseguiam diagnosticar com precisão o que estava acontecendo com aquele empresário/surfista, atlético e saudável. Depois de muitos exames, chegou-se à conclusão que ele sofria de esclerose múltipla, uma doença rara e pouco estudada no Brasil. Raphael fez o que foi preciso e foi para o combate. Hoje ele ajuda muito outras pessoas que enfrentam esse problema. O mais notável é que ele nunca parou de perseguir os sonhos que seu destino lhe reservou. Cresceu em cima da situação. Hoje é um dos apoiadores da ABEM,  Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (abem.org.br). 

ALFIO – “Fico é um dos caras que eu conheço com uma impressionante força de vontade. Um cara recém-casado que fica paralisado com uma mulher nova. Ele no auge da saúde, da vida produtiva, do trabalho, da sua marca bombando… E o cara de repente paralisado. Isso é para matar o sujeito. E aí ele venceu tudo isso. Acabou perdendo o casamento, porque a mulher dele não estava preparada para enfrentar uma situação dessas também. Uma menina que veio do Espírito Santo para São Paulo e, de repente, o marido dela estava em uma cama, paralisado. Não foi fácil para ninguém, os dois muito jovens, mas os amigos sempre estiveram ali.”

Capa do livro que conta a sua história e a luta contra a doença, lançado em 2004 pela Editora Gaia.

Os primeiros sintomas da enfermidade apareceram ainda nos anos 80. Até hoje Fico luta contra fases mais agudas e brandas, se manteve forte, trabalhando, surfando. A empresa honrou a tradição da família e as mochilas, malas e roupas da Fico são sinônimo de qualidade e durabilidade. Além de tocar a empresa ao lado do irmão Cláudio Levy, Fico mantém seus dias de lazer em Maresias com os amigos da infância e a filha Giovanna.  Viaja pelo mundo em busca de ondas ou a trabalho. No final do ano foi para o Hawaii surfar com os amigos. Um projeto recente que Fico está envolvido é o “Ecopraias – Soluções Sustentáveis”, que visa o tratamento biológico de efluentes. 

ALFIO – “A gente ama ele, só que a nossa forma de demonstrar o amor é encher o saco dele, brincando! A gente azucrina muito ele, tadinho! Às vezes estamos com alguns amigos, a gente vê o Fico e enche o saco dele. Ele pensa: ‘Xihhhh, lá vem os caras.’ Ele é intenso. Ele fica louco com a gente (risos).” 

Com Gabriel Medina e Miguel Pupo, ativação do projeto Ecopraias na Praia de Maresias. Crédito: Arq. Pessoal.

Fico sempre teve uma visão “para frente” buscando a vanguarda no surf, em seu trabalho, na luta de sua vida contra essa doença. Foi assim quando optou por largar tudo e ir morar no Guarujá. Quando decidiu abrir a sua marca de surfwear. Quando se juntou a um punhado de fiéis amigos para formar um Circuito Brasileiro de Surf. Quando buscou informação para minimizar os efeitos de uma patologia da qual pouco se sabia. E pensando em aliar a sua empresa a um mundo mais sustentável. Sempre ensinando. São exemplos de vida como esses que transformam não só ele, como outros, em pessoas mais fortes. Leais a seus princípios. Sua história de vida poderia virar um livro – e virou!