LUZ, CÂMARA, AÇÃO!

Diariamente recebemos imagens de diversos fotógrafos e filmmakers brasileiros espalhados ao redor do mundo. Selecionar o material recebido é um dos momentos mais prazerosos do dia a dia de quem trabalha em uma revista de surf. Vibramos com cada rabetada, rasgada, tubão e aéreo vistos de diferentes ângulos, mas alguns trabalhos nos surpreendem. Foi isso que aconteceu na escolha das pautas para a nossa edição de aniversário. Em meio aos arquivos fotográficos, um deles foi escolhido graças a uma visão incomum apresentada pelo gaúcho morador de Bali Everton Luis ao usar o flash como acessório para fotos de surf. Sessões no fim de tarde e já na calada da noite ganharam uma “luz” diferente, fugindo do comum (e do crowd) e proporcionando um trabalho plasticamente diferenciado. – Por Luís Fillipe Rebel / Fotos: Everton Luis

“Às vezes você vê uma sessão de skate da galera fazendo fotos iradas com flash, mas no surf é complicado. Isso já torna a experiência especial.” – Andrew Serrano.

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Floater do local Alik Rudiarta em Uluwatu, Bali.

Vendo alguns amigos fotógrafos como o americano Trevor Murphy e o catarinense Marcio David usarem o flash, Everton Luis decidiu aprimorar a sua técnica de fotografia aquática há um ano e meio  para tentar trazer uma luz realmente extraordinária no escuro, coisa que poucos profissionais da área tinham investido. Para iniciar o experimento foram necessários os seguintes “ingredientes”:

  • Adaptar uma recém-adquirida caixa-estanque para se conectar a uma caixa “auxiliar” de flash. No ajuste foram utilizados alguns parafusos para fazer um suporte;
  • Testar diferentes configurações da máquina até descobrir a melhor para cada situação;
  • Ajustar o foco e, principalmente, acertar o posicionamento, pois o fotógrafo também só vê o surfista quando está em cima dele;
  • Acostumar-se com o novo peso e volume da câmera ao ser conectada junto ao flash, o que foi a maior dificuldade;
  • E para finalizar, o “ingrediente especial”: amigos fissurados com disposição para se arriscarem no escuro e estender as sessões de surf até a calada da noite. Mais um cena do “Fugindo do Crowd”.

IMG_7845-YagoDoraMentawaisIndo2014PhotoEvertonLuisEm Macaronis, Yago Dora saiu logo da água com medo de aparecer um crocodilo. Mas nem precisou de muito tempo para render altas imagens.

HORA DA AÇÃO

A primeira session de fotos já foi em um estúdio de primeira classe: as esquerdas perfeitas de Padang Padang. Um início de poucas imagens registradas, com ele ainda se ajustando à novidade. Porém, como se sabe, quantidade não é sinônimo de qualidade.  Com a participação de Ian Cosenza, Cássio Tramontini e Elias Seadi em um SUP, a sessão experimental foi um sucesso!“Não foram muitas fotos, mas as poucas registradas ficaram muito legais. Inclusive, consegui uma do Elias no ângulo de baixo para cima pegando o fundo da prancha na cara do flash. Ficou tão legal que vendi para a Maresia (patrocinadora do atleta). Imagine… Minha primeira queda com o flash e já tive uma foto vendida para publicidade!”, lembra Everton.

“Poucas são as minhas fotos em Padang porque só caio lá na última luz, quase escuro para fugir do crowd. Então, é a minha chance de ter foto lá quando o Everton aparece com o flash.” - Ian Cosenza.

Na primeira queda com o flash, Everton sabia que Ian Cosenza estaria no outside na última hora da luz em Padang Padang.

Na primeira queda com o flash, Everton sabia que Ian estaria no outside na última luz em Padang.

Muito satisfeito após um trabalho bem feito na primeira queda, ficou claro para Everton que valia a pena investir nesse surf noturno. Fugir do crowd em picos famosos como Padang Padang, Bingin e Uluwatu, além de sair do comum com um visual diferente, com certeza renderiam bons frutos após muita dedicação. Assim, ele explorou sempre o flash ao longo do ano e cada vez os resultados saíam melhores: “Consegui obter um vasto arquivo de ótimas fotos, mas têm umas que gosto de ressaltar: as sessions em Bingin e Padang com o Andrew Serrano; as caídas logo que o sol se foi, como a que eu
registrei uma foto animal do Dávio Figueiredo; as sessões já no escuro em Padang com o Kayu Vianna e
o Jerônimo Vargas e as com os locais em Uluwatu, onde tem uma sequência com um floater animal do Alik Rudiarta.”

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Jerônimo Vargas.

Mas quem está sendo fotografado também precisa se adaptar à novidade. Como os surfistas não estão acostumados a receberem uma luz forte na sua direção enquanto pegam ondas no meio da escuridão, eles levam um susto e se atrapalham. No entanto, depois disso assimilam que vai ter um flash ali e passam a desviar o olhar apenas para a parede surfando normalmente. “Lembro do Jê reclamando de não conseguir enxergar nada no escuro. Descia cada onda na adrenalina e ficava totalmente cego quando o flash disparava. Ele tomou um caldo na minha frente que foi muito sinistro (risos),” fala Everton. Outra dificuldade, tanto para o fotógrafo quanto para o surfista, é sair sem enxergar nada, principalmente com a água na canela em mares de reef como Padang Padang.

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“Eu estava de single fin e a maré muito seca. Só tinha eu de prancha na água. A última foi a minha melhor onda, já totalmente escuro. Foi uma parada bem louca, nem acreditei que consegui porque estava muito perigoso. Na Indonésia, que é um lugar com bancada de coral, se torna algo mais perigoso ainda surfar à noite.” - Andrew Serrano

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“Macaronis é meio sinistro porque tem várias histórias de ter crocodilo por lá. A gente no escuro já estava ficando com medo e quando renderam umas legais já saimos.” – Yago Dora

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“Quando não se consegue enxergar muito, tudo passa a ser assustador. As ondas são o que menos assustam, mas a possibilidade de um tubarão ou qualquer coisa que possa lhe confundir com alimento (risos).” – Everton Luis

IMG_3773-DavioFigueiredoPadangPadangIndo2014PhotoEvertonLuisO flash proporcionou um visual completamente diferente para essa foto de Dávio Figueiredo no dia que ele pegou altas ondas sem crowd em Padang Padang.

A EVOLUÇÃO NÃO PODE PARAR

Assim como à medida que os surfistas colocam no pé um aéreo irado e já querem acertar outro mais inovador, os fotógrafos também estão sempre fissurados para evoluir. “As sessões foram se criando e tinha que inventar algo mais inovador ainda”, disse Everton. Então, a cada session novos testes eram feitos.

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Até um SNI participou dos testes do Everton.

Durante uma trip para as Mentawai, Everton se lembrou de umas fotos que viu do Bruce Irons, onde o fotógrafo estava no barco e apenas o flash foi para dentro d’água. A partir daí, ele já sabia a qual inovação iria se dedicar. Na perfeição das ondas fáceis em Pitstop, rolou o teste do novo formato e os surfistas foram para a água com uma única instrução: manobrar na frente do flash. “Aproveitei para abusar dos atletas, pois contava com eles para nadarem com o equipamento entre as ondas e no escuro enquanto eu fotografava da praia. No melhor momento, o flash estava na mão do meu amigo fotógrafo Ricardo Esteves. Uma das fotos dessa noite é a minha preferida, um aéreo alto do Yago Dora girando de backside”, conta Everton.

Sempre se renovando, Everton Luis quer desenvolver ao máximo o flash e buscar ângulos inusitados para usá-lo. Como hoje é sócio da Box Water Housings, uma empresa nova de caixas-estanques, ele está em busca de desenvolver o melhor modelo para usar o flash nas caixas da Box. “Logo devo aparecer na praia para testar umas ideias…”, garante. Vontade dos surfistas também não vai faltar, já que todos os fotografados não veem a hora de viverem essa experiência de novo. Agora é ficar atento aos próximos capítulos da evolução dessas ideias porque muito material bom ainda deve vir por aí!

“Uma das fotos dessa noite é a minha preferida: a do Yago Dora voando muito alto girando de backside”, disse Everton.