GUARDA-VIDAS COLECIONA PRANCHAS RARAS E QUER CONSTRUIR MUSEU

O surfista e guarda-vidas Cristian Carneiro restaura pranchas há 20 anos em Itanhaém, São Paulo, e seu acervo possui pranchas da década de 60.

O surfista e guarda-vidas Cristian Carneiro. Foto: Nicolas Schukkel/Prefeitura de Itanhaém.

De frente para o mar…  É assim que o surfista e guarda-vidas Cristian Carneiro Bernardo passa boa parte da sua vida. Cristian, que nasceu em frente à Praia dos Pescadores, em Itanhaém, no litoral de São Paulo, começou a surfar aos 16 anos e acabou se apaixonando por aquela que o fez deslizar nas mais incríveis ondas. E toda essa paixão acabou transformando o santista em restaurador e colecionador de pranchas, que hoje, aos 38 anos, cataloga histórias de surf e sonha em montar um museu com preciosidades do mundo do esporte na cidade.

Todas as pranchas têm etiquetas que falam um pouco de sua história. Foto: Nicolas Schukkel/Prefeitura de Itanhaém.

“Ganhei minha primeira prancha e tive que levar para consertar já que estava arrebentada. Da segunda vez, era muito caro o conserto. O rapaz da fábrica me ensinou a consertar a minha própria prancha. Ele me ensinou esse ofício. Trabalhei um pouco com ele e montei uma oficina na garagem da minha casa. Eu fazia de graça”, diz Cristian que, com o grande movimento, resolveu cobrar pelo serviço.

E esse trabalho árduo com as pranchas fez o surfista e guarda-vidas enxergar as histórias que cada uma carregava, percebendo, assim, o verdadeiro valor das mais novas às mais antigas. “Foram aparecendo pranchas antigas que eram desprezadas. Achei algumas no Disque Entulho, outras jogada na caçamba… Às vezes alguém queria uma prancha nova e usava como troca uma antiga. Desse jeito, foram surgindo muitas pranchas na minha mão”, diz o surfista.

As pranchas começaram a se acumular na oficina de Cristian, lado a lado, emparedadas e com etiquetas que falam um pouco de sua história. E com conhecimento, Cristian, como profissional de ‘fiberglass’, mexe com fibra de vibro e resina, além de conhecer a técnica de produzir quilhas, sabe descrever cada uma das pranchas, num total de cerca de 30 até agora. No acervo é possível encontrar pranchas de várias regiões do Brasil e do Hawaii.

Detalhe: prancha de Johnny Rice. Foto: Nicolas Schukkel/ Prefeitura de Itanhaém.

“A primeira que peguei foi um achado. Encontrei voltando de um dia de surf e achei em um disque entulho. O quebrado que ela tinha é porque jogaram dentro da caçamba. Essa foi fabricada na década de 70 e era de um californiano. Ele veio para o Brasil para fazer pranchas na praia do Tombo, foi um dos maiores incentivadores do surf, o Johnny Rice. As pranchas dele eram vermelhas, mas ele fez uma série especial no Brasil que era verde”, conta Cristian, que também explica que o valor das demais pranchas é medido de outra forma: “Ela não é antiga, mas foi doada por uma escolinha de surf e duas gerações a utilizaram nesse projeto. Uma única peça movimentou um monte de gente.”

E foi há cerca de quatro anos que o guarda-vidas teve a ideia de montar um espaço dedicado ao surf em Itanhaém. Ele começou a restaurar as pranchas antigas e fazer exposições voluntárias pela cidade durante eventos e campeonatos de surf. Cristian quer que história de Itanhaém com o surf se mantenha viva e acredita que, por meio das pranchas e de relatos sobre o esporte, isso será possível.

“Itanhaém tem uma história pesada com o surf. Desde 1965 até os dias atuais, o surf não parou aqui, só progrediu. A gente nunca perdeu essa cultura. A associação mais antiga de surf é em Itanhaém. Temos surfistas profissionais, muita história bacana, relatos bacanas… Flavio La Barre veio para Itanhaém e fui adquirindo muitas pranchas dele da Califórnia, do Hawaii”, conta. Santista radicado em Itanhaém, La Barre foi uma das figuras mais importantes do surf na cidade, foi o pioneiro no ramo de lojas de surf wear em meados dos anos 80, além de patrocinar diversos atletas. La Barre morreu em 2007.

Cristian trabalhando na restauração de uma prancha. Foto: Nicolas Schukkel/Prefeitura de Itanhaém.

Mas quando tem uma folga entre uma restauração e outra e o trabalho de guarda-vidas, Cristian pelo menos três vezes na semana tenta aproveitar o prazer de deslizar nas ondas, nem que seja por poucos minutos. “Sacrifico meu horário de almoço. Eu vivo na água, não consigo ficar longe e não saberia viver em outro lugar que não tivesse mar”, diz.

Pranchas antigas começaram a se acumular na oficina de Cristian. Foto: Nicolas Schukkel/Prefeitura de Itanhaém.

Hoje Cristian corre atrás do incentivo de empresas privadas e do poder público para tornar o museu uma realidade para a cidade. A ideia é levar todas as pranchas e também um acervo de revistas de surf da década de 70, que contam a história do esporte. E o projeto do santista é ainda maior! Ele quer tornar o surf uma fonte de renda para muitos jovens da cidade. “O legal do museu era montar junto com uma escolinha de surf e tornar isso não só um ofício, mas um projeto profissionalizante. Ensinar a surfar e fazer a restauração de pranchas. As pranchas parecem ser só um objeto, mas tem bastante história por trás”, explica.

Fonte: g1.globo.com