“MARKETING VERDE” NO MERCADO DO SURF

Hoje em dia muito se fala sobre sustentabilidade, mas nem todo mundo sabe dizer quais as diferenças entre produtos sustentáveis, reciclados e recicláveis. Empresas em diversos setores divulgam seus produtos com “marketing verde”, porém utilizam o termo incorretamente e confundem, ou até ludibriam os consumidores, pregando uma coisa e fazendo outra bem diferente.

E na indústria do surf isso não é diferente. Por exemplo, EPS (isopor) vem sendo “vendido” como um produto verde e ecológico. A própria WSL tem se posicionado contra a utilização de equipamentos que não sejam sustentáveis. Entretanto, não é bem clara em sua posição e, um pouco tendenciosa.

Então, para falar sobre esse tema, convidamos para uma entrevista FERNANDO CÂMARA, proprietário da fábrica de blocos Teccel, que vem trabalhando em cima desse assunto.  (Em destaque: Fernando Câmara em meio aos blocos em sua fábrica. Foto: Arquivo Pessoal)

Por Patrick Villaça.

Ian Gouveia arriscando um aéreo muito alto. Foto: Tom Toledo.


“…para ser sustentável, é preciso uma constante busca até atingir um equilíbrio entre qualidade e meio ambiente.”

Em sua opinião, O que pode ser considerado um produto sustentável?

Um produto pode ser considerado sustentável quando apresenta o melhor desempenho ambiental no decorrer de todo ciclo de vida, com função, qualidade e nível de satisfação igual, ou melhor, ao ser comparado com um produto-padrão.

Portanto, para ser sustentável, é preciso uma constante busca até atingir um equilíbrio entre qualidade e meio ambiente. Nesse sentido, considera-se que é mais correto indicar não que os produtos são sustentáveis, mas que eles procuram contribuir para a sustentabilidade, sendo possível definir qual é o grau dessa contribuição e procura.

Fernando Câmara em sua fábrica. Foto: Arquivo Pessoal.

O que te motivou a encomendar um estudo sobre os blocos EPS (isopor), já que seu produto principal é bloco de poliuretano?

Observei que muitas pessoas têm se equivocado em suas colocações, divulgando que o EPS seria um produto verde e sustentável, quando na realidade não é. Trata-se de um derivado do petróleo com muitas dificuldades de coleta para reciclagem e com um potencial nocivo à saúde, inclusive com comercialização proibida nos ramos de embalagens e alimentos em diversas cidades americanas, como Nova York e São Francisco, já há algum tempo.

Lucas ‘Chumbo’ Chianca em Jaws. Foto: Gavin/WSL.


“Muitas pessoas têm se equivocado em suas colocações, divulgando que o EPS seria um produto verde e sustentável, quando na realidade não é.”

Ian Gouveia rasgando com força e estilo. Foto: Masurel/WSL.

Então, como você vê esse “marketing verde” das marcas vendendo as pranchas EPS como um produto sustentável?

Primeiramente é necessário entender o que é um produto sustentável. Se a coleta seletiva for bem feita, tanto o EPS quanto o poliuretano podem ser reciclados, reduzindo bastante o impacto negativo ao meio ambiente. Hoje, diversas empresas têm interesse nesse tipo de resíduo para processá-los e transformá-los em outros produtos. Temos uma parceria com uma dessas empresas, a Santa Luzia Molduras, que desenvolve um trabalho inovador transformando nossos resíduos em revestimentos para interiores. E aproveito aqui a oportunidade para reiterar nosso interesse em colaborar com todos os clientes que desejam um destino ambientalmente correto para seus resíduos.

Quais os possíveis danos à saúde e ao meio ambiente que os blocos EPS podem causar? 

O estireno é o principal componente da fabricação do EPS e é um composto químico que já foi objeto de dezenas de estudos desde que os plásticos foram desenvolvidos. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) encara essa substância com certo receio, pois observou alguns profissionais que têm contato diário com esse produto, e constatou que eles passaram a sofrer de problemas de saúde, como dores de cabeça, depressão, perda auditiva e problemas neurológicos.

O longo período de degradação do EPS, cerca de 150 anos, permite que com o passar do tempo o plástico vá se quebrando, dando origem a uma espécie de microplástico, que pode absorver compostos tóxicos como pesticidas e metais pesados. Com isso, muitos animais aquáticos podem confundir esse microplástico com organismos marinhos e se alimentar deles, e acabam se intoxicando. Outro risco derivado desse, é a possibilidade de algum ser humano se alimentar desses animais intoxicados.

O pernambucano Ian Gouveia na Cacimba do Padre, Fernando de Noronha. Foto: Henrique Pinguim.


“O Kelly é sócio da Firewire e da piscina de ondas, que também tem participação societária da WSL, então é natural que eles se mobilizem para ganhar mercado.”

Capa da Surfar #51, com Ian Gouveia em Sumbawa. Foto: Tom Toledo.

Capa da Surfar #51, com Ian Gouveia em Sumbawa. Foto: Tom Toledo.

E o poliuretano?

O poliuretano de pranchas é uma espuma rígida e, assim como o EPS, é considerado um plástico. Portanto, deve ser alvo de uma coleta seletiva para reciclagem, pois o tempo de degradação dos plásticos é muito longo e sua decomposição pode resultar em contaminação ao meio ambiente e, consequentemente, ser prejudicial ao ser humano também.

No caso do poliuretano, já foi constatado que micro-organismos podem se alimentar desses resíduos sem causar danos ao meio ambiente.

As pranchas Firewire do Kelly Slater e do Stuart Kennedy vêm sendo muito divulgadas durante as etapas do Tour. Você acha que isso pode ser uma jogada comercial?

Sim, totalmente. O Kelly é sócio da Firewire e da piscina de ondas, que também tem participação societária da WSL, então é natural que eles se mobilizem para ganhar mercado. Mas dizer que essas pranchas são sustentáveis está muito longe da realidade, e boa parte do mercado e da mídia internacional já sacou isso.

Ian Gouveia surfando num belo visual de um dos cartões-postais de Fernando de Noronha.  Foto: Henrique Pinguim.

Isso pode ser mais uma manobra da WSL para exigir que no futuro os surfistas usem essas pranchas “sustentáveis” no Tour para  favorecer seus parceiros?

Sim, isso ficou bem claro pelas palavras do atual CEO. Porém, há uma forte oposição de muitos fabricantes e atletas que alegam buscar uma melhor performance do equipamento que esse tipo de construção ainda não provou conseguir, somado à questão dessas pranchas não serem sustentáveis, muito menos “verdes”.

Wallace Vasco voando em Mentawai. Foto: Ricardo Estevez.


“É preciso ter muito cuidado com o que se diz, pois o consumidor atual e principalmente das gerações mais jovens, está cada dia mais atento a distinguir uma informação correta de uma mentira.”

Fernando na África do Sul. Foto: Instagram.

Fernando na África do Sul. Foto: Instagram.

A WSL também reuniu fabricantes de pranchas de surf, fornecedores de matéria-prima e consultores do pensamento verde para discutir sobre as ECOboards. Acredita que isso vai em frente?

Para o consumidor, a primeira impressão é que se trata de algo biodegradável ou totalmente isento de origem fóssil, então é preciso ter muito cuidado com o que se diz, pois o consumidor atual e principalmente das gerações mais jovens, está cada dia mais atento a distinguir uma informação correta de uma mentira. É preciso que os fabricantes fiquem atentos, já que uma divulgação inverídica leva a descredibilidade de seu público alvo.

Muito já se tentou reciclar os blocos de poliuretano, até mesmo para a construção civil, mas o alto custo inviabilizou a reciclagem. Existe algum projeto em andamento para a reciclagem das pranchas de poliuretano e EPS?

Sim. Atualmente existem diferentes formas de reaproveitamento de ambos. Apesar de o EPS ser reconhecido por ser um material reciclável, ainda existem muitos problemas ligados ao processo, principalmente devido ao seu valor comercial.

O isopor é levíssimo e ocupa um espaço muito grande, o que corrobora para seu baixo preço de venda. Ou seja, o isopor é reciclável, mas não é uma opção viável para catadores e cooperativas quando se trata de grandes escalas como o volume.

O poliuretano também pode ser reciclado através de métodos que podem ser químicos, mecânicos e ainda degradados por micro-organismos.O poliuretano também pode ser reciclado através de métodos que podem ser químicos, mecânicos e ainda degradados por microorganismos.

Fernando Câmara em um churrasco com fabricantes no Rio Grande do Sul. Foto: ????????

Fernando Câmara em um churrasco com fabricantes no Rio Grande do Sul. Foto: Instagram.

Quais as diferenças entre os termos/produtos sustentáveis, reciclados, recicláveis?

Reciclável indica que o material pode ser transformado em outro novo material. Reciclado indica que o material já foi transformado. Algumas vezes, o material que foi reciclado pode sofrer o processo de reciclagem novamente.

Certos materiais, embora recicláveis, não são aproveitados devido ao custo do processo ou à falta de mercado para o produto resultante. E no caso de produtos sustentáveis, a preocupação diz respeito a algo que, além de cumprir os requisitos “verdes”, também preze a qualidade. Há investimentos em questões como durabilidade e resistência.


“E aproveito aqui a oportunidade para reiterar nosso interesse em colaborar com todos os clientes que desejam um destino ambientalmente correto para seus resíduos.”

O que nós, surfistas, poderíamos fazer para diminuir os danos ao meio ambiente ao descartar uma prancha quebrada?

Precisamos de uma consciência dos fabricantes em disponibilizar espaço para recepção de pranchas que já não podem mais serem utilizadas. Esse material pode ser destinado a centros de reciclagem para remoção da fibra de vidro e madeira e, posteriormente, ter o miolo destinado a empresas de reciclagem, seja poliuretano ou EPS.

Fabio Gouveia entubando perfeito na Cacimba do Padre, Fernando de Noronha. Foto: Henrique Pinguim.

Para finalizar, quais os atletas que vocês patrocinam?

Cedemos peças em forma de apoio a vários atletas, como Fabio e Ian Gouveia, Carlos Burle, Sylvio Mancusi, Lucas Chumbo, Lapo Coutinho, Alan Donato, Luel Felipe, Vitor Bernardo e Picuruta Salazar.

Também para a família Pacelli, Junior Lagosta, Diego Silva, Alexandre Ferraz, Kaká Campos, Carlos Bahia, Douglas Silva, Deyvison Santos, Gabi Cavalcante, Saulo Carvalho, Jaime Viudes, Wallace Vasco, Ulisses Freesurfer, Halley Batista, Luara Mandelli, Deivid Silva e Roberto Pino.

Além disso, temos apoiado dezenas de campeonatos nesses quase vinte e cinco anos de vida da empresa.

Fabio Gouveia aproveitando os tubos em Noronha. Fotos: Henrique Pinguim.