MUITO MAIS QUE UMA PRANCHA DE SURF

 Uma prancha é só uma prancha? Não! Uma prancha é muito mais! É algo sagrado! Tem dúvidas? Então, vamos lá!

Alguns “milanos” atrás, o processo de fabricação de uma prancha tinha um significado bem mais profundo. As pranchas eram feitas de madeira, mas não de qualquer árvore! Eram de árvores especiais, rezadas, escolhidas por um xamã da tribo, que pedia permissão para cortar a árvore e agradecia à Terra (Pachamama) pela permissão que era dada.

Essa madeira sagrada era shapeada e durante o processo todo o shaper entrava em seu rezo, mentalizando e emanando boas energias à prancha e a quem fosse surfar com ela! Estava ali um objeto sagrado de conexão do indivíduo com o surf e o mar!

E foi nesse embalo que Vanessa Berbelli, da Longarina, foi shapear pela pela primeira vez e, aqui, ela conta como foi essa experiência “sagrada”, Confira!


Invadi  a sala de shape de três irmãos Felipe, Lucas, Andre e o amigo Pedro, da FLAP boards, que transformaram a amizade e a paixão pelo surf em uma nova jornada! Quatro fissurados por surf que se dedicam de alma nessa engenharia e arte que é fazer uma prancha. E fui lá entender, no bloco da prancha do Fê, louco por surf (que responsa), os mínimos detalhes. Generosamente, recebi a parte de cima do bloco para começar a brincadeira, dividindo o shape com ele.

A primeira pergunta que fiz foi: “COMO NÃO FIZ ISSO ANTES?”. E a primeira sensação foi de: “UAU! QUE TESÃO” deslizar a lixa sobre o bloco. Pode parecer exagero, foram só algumas idas e vindas com a lixa, mas o contato com o realizar algo, ver algo começar e acabar, sentir-se realizadora (no caso participante) é muito empolgante.

Foto:  FlapBoards.

Durante o processo, muitos insights brotavam! Shapear é extremamente terapêutico! Chega a ser uma meditação e exige um grande estado de presença. Qualquer marcação errada ou “comida” a mais de bloco com a lixa, pode colocar a prancha a perder. Nisso vi total relação com o que aprendi com a Cris Brosso no surf. O mesmo estado de presença no mar é necessário, do contrário você perde a onda e esse tal estado devia ser mantido em nossas 24h, né? Vivendo o presente e não o passado que já foi ou o futuro que nem aconteceu.

Me impressionei como algo pode ser tão exato e tão artístico ao mesmo tempo! São os dois lados do cérebro em ação! É uma engenharia com suas marcações, seus 3 1/4 de alguma coisa, litros e réguas somados ao feeling e tato que, muitas vezes, o olho percebe e o shaper entende que um lado ficou maior que outro, precisando de mais uma lixada sem nem tocar no bloco.

 Foto:  FlapBoards.


Foto:  FlapBoards.

O bloco, de PU (poliuretano), chega com ranhuras, gominhos ao longo dele que serão retirados com o lixamento. A sala de shape da FLAP é preparada com uma luz branca e paredes metade azul e metade branca, como a maioria das salas, que também podem ser toda escura.

Lá o azul fica embaixo, isso ajuda a descansar os olhos no campo de visão do shaper, que passa um tempo ali fixado no bloco branco sob a luz clara.

Chamou a minha atenção ver que assim, como a luz, as sombras são fundamentais no processo. É colocando o bloco contra a luz e fazendo sombra que ele irá ver as imperfeições e poderá trabalhar encima delas deixando o bloco mais perfeito possível.

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Se isso não for um paralelo de olhar para si, encarar suas sombras e piores características, se analisar e daí tentar melhorar, chegando em suas curas, eu não sei mais o que é! E por fim, a relação que se cria ao fazer a própria prancha. Não fiz a minha ainda, mas ter consciência do significado e por quês de cada curva, cada concave ou double concave, bottom, quina, transição na borda… E o melhor, o que cada um significa para o seu biotipo que vai ocupar aquele espaço sobre a prancha, seja você iniciante ou pró do surf, dá uma sensação de realização, pertencimento e conexão com aquilo. Se dá isso de fora dágua, imagina dentro com a “cria” no pé?

Depois do shape pronto, vem a laminação, mais uma alquimia que eu espero acompanhar em breve pra voltar e contar para vocês. Nessa busca nossa, na Longarina e na Surfar, de resignificar o surf, trazendo mais da sua raiz e do sentimento verdadeiro de pessoas que também estão nisso com amor, fica bem claro que uma prancha não é só uma prancha. Cada shaper, cada profissional ali atrás é único! Cada um com seu estilo e técnica que vai de encontro com a vibe do surfista dono da prancha.

Sonhamos com mais mulheres mão na massa, ou melhor, mão no bloco! Quer se inspirar, saber e fazer mais? Escreve para gente! Vem ler também sobre o CongoProject, duas mulheres feras também nessa estrada.

Por Longarina, parceira da Surfar na seção Surf Feminino.