Assim que saiu a polêmica nota 8.30 para Gabriel Medina na bateria contra Tanner Gudauskas neste último sábado durante o Hurley Pro at Trestles, imediatamente uma chuva de comentários e posts criticando a World Surf League infestaram a internet. Em seguida também começaram a aparecer pessoas que julgaram as reclamações como mais um “mimimi” de brasileiro após assistir a derrota de um compatriota. Mas seria realmente tudo isso apenas um “choro” de mal perdedor?

Veja a comparação das ondas de Gabriel Medina e Tanner Gudauskas

Primeiro, é bem verdade que várias vezes o nosso lado emocional do torcedor pode nos levar a fazer reclamações injustas. Outras vezes, as baterias são tão acirradas que qualquer um dos surfistas em disputa poderia vencer e quando não é um dos nossos, acabamos colocando a decisão como um erro dos juízes. Mas, claramente, não é sempre assim que a banda toca. Diversas vezes nos deparamos sim com erros grotescos que demonstram uma ineficiência do julgamento feito naquela situação. Casos claros como , por exemplo, a inesquecível final em Portugal entre Medina e Julian Wilson.

Assim como naquele campeonato realizado em outubro de 2012, a decisão de sabádo foi questionada não apenas por nós brasileiros. Horas após a bateria, o respeitado aerealista e big rider havaiano Matt Meola, se mostrou indignado com as notas da bateria. “Por mais que eu queira o John John vencendo o título mundial, eu ainda penso que essa foi a pior decisão que já vi no surf! Se a onda do Tanner foi um 8.67, por favor me diga como a do Gabriel medina foi um 8.30?! WSL, vamos lá né! Isso não é legal! Esta evidente enganação!”, disse ele na postagem que você vê abaixo em inglês.

O comentarista da WSL Peter Mel também foi a favor de Medina e não ficou em cima do muro durante a discussão sobre a bateria na bancada de transmissão do evento. “Eu pensei que a pontuação, aquela onda no final, fosse o suficiente para Gabriel Medina virar a bateria. É claro, todo mundo tem uma opinião, minha opinião era que Gabriel Medina ia levar essa … eu pensei que ia ser na casa dos nove pontos”, comentou o americano, que não foi o único do time da WSL a se surpreender com o resultado. Durante a transmissão da bateria, o locutor Ronnie e todos os comentaristas davam como certa a virada de Medina, até que veio a nota 8.30 para a surpresa deles. Barton Lynch, que também estava na locução, chegou a soltar um “Whaaaat?” ao vivo! Claramente não acreditando no que estava assistindo. Em uma postagem no Instagram, o jornalista brasileiro e ex-surfista profissional Ricardo Bocão transcreveu a opinião que os três comentaristas Ross Williams, Strider Wasilewski e o campeão mundial Barton Lynch deram no exato momento da onda e da nota. Leia abaixo:

“Dessa vez, não preciso nem emitir a minha opinião. Vou apenas transcrever em inglês, para ser absolutamente fiel, o que os três disseram sobre a onda do Medina. Entra o “replay” da onda na tela e o comentarista havaiano Ross Williams dispara sem dó nem piedade: “…This was easily the best wave we’ve seen coming through the line up… A long wall, perfect line, it was a big set wave…” Ross continua elogiando a onda do Medina: “This easily feel like it’s gonna be the highest score of this heat! He should take control, Ronnie!” O havaiano conclui: “…The wave was an absolute dream… I would not be surprised if this goes past a 9!” Ronnie então chama Strider Wasilewski na água: “That was honestly the best wave we’ve seen all day!” diz Strider. Enquanto todos esperam a nota, Ross comenta: “Well, I actually agree with Strider! That was the best wave we’ve seen all day!” Ronnie pede o comentário do australiano campeão mundial de 88, Barton Lynch e ele começa com “That wave of Gabi was amazing…”! De repente sai a nota do Medina – 8,30! Barton exclama espontâneamente em alto e bom som: “WHAT?” Ross comenta: “I share your shock, Barton!” Barton repete incrédulo: “WHAT??” Ross continua: “I honestly thought that was gonna be at least a 9, minimum!” Dentro d’água, Medina levanta os braços e, sarcástico, aplaude os juízes! Barton: “Obviously I think we are all a little bit shocked! I thought that was the best wave of the heat and if that first one of Gabi was a 8,83 this one had to be a 9,5!” Barton continua: “There’s no way… ahh… Gabriel’s was definitely better than Tanner 8,5… No question in my mind!” Faltam dois minutos, Ronnie chama Strider na água e o americano fecha o caixão: “To me that was the score that he needed, it was the best wave I’ve seen come through…!”, postou o jornalista em seu perfil do Instagram (@ricardobocaooficial).

REVOLTA AUSTRALIANA

O sempre polêmico e muito lido site da Stab Magazine também fez algumas matérias relacionadas à qualidade das decisões dos juízes no dia de ontem. Além de mostrarem um vídeo das ondas e a polêmica em torno do resultado do Medina, questionaram as derrotas de Julian Wilson e Matt Wilkinson, que também está forte na disputa pelo título mundial junto ao John John e o Gabriel.

Julian, sem dúvida, foi um dos surfistas que mais demonstrou a indignação através das redes sociais. Primeiro ele comentou em um vídeo do Instagram da WSL: “Os juízes talvez precisem assumir alguma responsabilidade por suas pontuações ao longo dos últimos dois dias. Talvez seja hora de colocá-los sob o microscópio, como eles fazem com a gente”.

Depois o australiano publicou no Instagram um vídeo contendo a onda dele, de Wilko e de Medina, voltando a questionar o critério dos juízes: “Quando noites sem dormir, inúmeras horas de preparação e duras lições de derrotas passadas, fica difícil não se sentir frustrado quando não está sendo recompensado em momentos chave como este. Talvez seja hora de analisar em detalhes o que os juízes veem e entendem como bom surf em comparação com o que os melhores surfistas do mundo veem e compreendeem como um bom surf, o quanto isso poderia ser um pouco diferente?”, postou ele marcando Wilko e Medina.

No post de Julian, Matt Wilkinson e o bicampeão mundial Tom Carroll comentaram. Wilko disse: “É difícil de aceitar quando tomam decisões que decidem a vida das pessoas e não tomam cuidado para tomar a decisão correta e não são de todo responsabilizados”. Enquanto Carroll afirmou: “Estou contigo, Julian Wilson. Este foi um erro evidente do sistema de julgamento da WSL. Me sinto mal por Matt Wilkinson e pelo olhar dele durante as entrevistas pós-bateria”.

NÃO ESTÁ MAIS SOZINHO

Quem há muito tempo trava uma batalha quase que solitária contra os juízes da WSL é o francês Jeremy Flores. Algumas vezes com razão e outras não, Jeremy nunca se escondeu na hora de criticar o falho sistema de julgamento da entidade. Por essas atitudes, o francês já foi multado várias vezes por “danificar a imagem do esporte surf”, como é dito em no livro de regras da WSL e que foi apurado pelo site da Stab Magazine (veja a matéria completa). As multas podem variar entre 1.000 a 50.000 dólares. “É tudo tão arbitrário, tão subjetivo. Talvez não muito diferente do julgamento, às vezes. Claramente, a WSL escreve as regras, e se você não gosta delas você pode ir surfar em outro lugar, mas o problema é que essa atitude é vazia de perspectiva”, opinou o jornalista Jake Howard no site da revista australiana.

Vendo toda a repercussão que os erros em Trestles causaram, Jeremy mais uma vez não se calou e no domingo de manhã fez um desabafo nas redes sociais, que dois dias depois foi excluído: “Hahahahh muito engraçado. Agora eu vejo todos postarem merda sobre o mal julgamento e tudo na rede social, em todo lugar… Eu apenas venho afirmando isso durante os últimos seis anos e fui multado um milhão de vezes por pedir explicações. Agora todo mundo está finalmente acordando. O julgamento neste momento é muito amador para o quão grande o esporte se tornou. Temos contratos, dívidas, patrocinadores, bônus; nós dedicamos as nossas vidas a este esporte. Nós todos contribuímos para a evolução do nosso esporte. Não me interpretem mal; deve ser duro ser um juiz, é um trabalho difícil, mas se o julgamento não é bom o suficiente, então não deve haver esse tanto de dinheiro envolvido. Simples assim!”, afirmou o francês no post que você vê abaixo na íntegra.

Agora, fica a dúvida, será que a WSL irá se dedicar mais à melhorar o sistema de julgamento das competições? Por enquanto, nos resta apenas torcer para que mais erros não voltem a prejudicar os atletas do World Tour.