NORONHA – O HAWAII BRASILEIRO


Fernando de Noronha realmente é o tipo de lugar que você vai uma vez e sempre vai querer
voltar. Se em quase todas as partes do Brasil o verão é sinônimo de mar flat, com poucas ondas, em Noronha essa época do ano é exatamente ao contrário. A ilha recebe grandes ondulações entre dezembro e fevereiro (às vezes até março) e ficou conhecida pelos surfistas que a frequentam como o “Hawaii Brasileiro”. Água quente e cristalina, tubos para esquerda e direita e, de quebra, você ainda tem algumas opções para surfar em picos com fundo de pedra. A Surfar vai lhe dar algumas dicas para você aproveitar ao máximo sua trip para esse arquipélago. - Por José Roberto Annibal / Foto de abertura: Henrique Pinguim

A adrenalina já começa quando o avião sobrevoa a ilha e a gente consegue ver as ondas quebrando na Cacimba do Padre. Com o coração a mil, você ainda vai ter que entrar numa fila para pagar as taxas, esperar o desembarque das pranchas e rezar para sua mala chegar. Sem falar em hotel, translado, etc. “Calma aí…Você está em Noronha”, fala o funcionário do aeroporto. Realmente ninguém tem muita pressa por lá!  No paraíso também tem dessas coisas.

Bem-vindo ao paraíso! Vista aérea de Noronha. Foto: Michele Roth.

COMO CHEGAR

Há voos para o arquipélago partindo de Natal e Recife. A viagem leva aproximadamente 1h20min. Na chegada, você pode evitar uma fila razoável se já tiver pagado a taxa ambiental obrigatória pela internet. A taxa é cobrada de acordo com os dias de permanência na ilha. O valor é R$ 51,40 por dia e deve ser pago no aeroporto no momento do desembarque ou pela internet.

ONDE SE HOSPEDAR

Em Noronha há acomodações para todos os gostos e bolsos. Um exemplo disso é o Sistema de Hospedaria Domiciliar criado em 1991, como forma de distribuir a renda entre todos no arquipélago. Este sistema visa a criação, nas casas de moradores da ilha, de pequenas pousadas com o mínimo de conforto necessário para um bom atendimento. Para aqueles fissurados que pretendem passar o dia todo na praia ou fazendo passeios para conhecer a ilha, uma boa cama e um ar condicionado funcionando bem já é o suficiente. Hoje são cerca de 100 pousadas domiciliares com média de quatro apartamentos em cada uma, todas com WC privativo e banho quente, ar condicionado, frigobar e televisão. Na semana do Réveillon, os preços sobem muito, pois o arquipélago recebe turistas que vão para a festa do Zé Maria e as baladas de fim de tarde na praia da Conceição. Se escolher uma pousada perto do Boldró, fica mais perto da Cacimba e tem a opção de ir andando para surfar no fundo pedra do pico.

A praia da Biboca em primeiro plano, seguida pela praia do Porto com o pico da Conceição e da Cacimba do Padre mais ao fundo. Um verdadeiro cartão-postal. Foto: Marcus Lavinius.

ALIMENTAÇÃO

A ilha conta com vários restaurantes, bares e lanchonetes, a maioria com instalações e serviços simples e comida caseira. Peixes, frutos do mar e preços altos estão em quase todos os cardápios. Algumas pousadas também servem pratos especiais, geralmente com peixes, então o melhor é pesquisar. Grande parte dos produtos vem do continente, o que inflaciona a conta. Na hora de escolher o prato, pergunte pelo peixe mais fresco, pescado nos arredores da ilha. O programa mais famoso é o Festival Gastronômico da Pousada do Zé Maria, que acontece às quartas e sábados, e que não sai por menos de 164 reais por pessoa (com 10%). A melhor opção “econômica” é o Flamboyant na entrada da Vila dos Remédios, pertinho da BR. Vale a pena ir no supermercado para comprar água e algumas besteiras para matar a larica, pois nas pousadas e nas praias os preços costumam ser bem salgados.

LOCOMOÇÃO

O ideal é alugar um buggy para se deslocar de uma praia para outra. Como o valor do aluguel pode ir de 150 reais e chegar a 600 reais a diária (na semana do réveillon), o ideal é dividir com quatro pessoas para não ficar muito pesado. Muita gente também anda de táxi para se locomover, o problema é que nem sempre tem algum disponível no momento que você precisa. Além disso, tem a opção do ônibus que passa de 30 em 30 minutos, mas ele não vai até a Cacimba do Padre.

O buggy é o melhor meio de transporte para os surfistas na ilha. Foto: Annibal.

O QUE LEVAR 

O equipamento vai depender muito do que você está querendo surfar em Noronha e, principalmente, de como vai estar preparado. O ideal é levar uma prancha 6 pés para os dias menores até uma gunzeira acima de 7 pés. Vale sempre checar as previsões alguns dias antes para não ser surpreendido quando chegar lá. Se tratando de uma onda rápida e tubular, pranchas mais estreitas são melhores para encaixar na onda da Cacimba. Mas se de repente quebrar um Abras, uma 6’4 com borda e bastante área certamente vai deixar você mais confortável na hora de dropar. Agora, se liga porque é fácil e comum quebrar pranchas em dias de tubos na Cacimba. Alguns surfistas chegam a levar duas pranchas para a praia, pois o mar pode ter uma grande mudança no final de tarde quando a maré enche . E voltar até a pousada para pegar uma outra prancha, certamente você perder um tempo precioso. Um leash para ondas grandes e médias também não pode faltar, de preferência que estejam novos para não deixá-lo na roubada numa hora que for precisar dele. A empresas aéreas cobram as pranchas como fossem bagagem. Portanto, você pode levar um pequeno quiver de três pranchas e mais uma mala razoável para não passar dos 23 quilos permitido por pessoa.

Quando Noronha estiver deste tamanho (15 pés plus), você vai querer estar com um gunzeira no quiver, como fez Aldemir Calunga. Foto: Michele Roth.

NÃO PODE FALTAR

Não esqueça de um boné ou viseira, tênis, chilenos, bermudas, camisetas, uma boa máquina fotográfica e algum medicamento que você necessite ou use constantemente. Como sugestão, não esqueça de levar dinheiro em espécie ou cheque, já que nem sempre cartão é aceito em todos os lugares. O uso de protetor solar é obrigatório, pois o sol de Fernando de Noronha é muito forte e deixa você “moído” à noite, principalmente para quem fica na água surfando. Um bom exemplo de como o sol pega mesmo é quando chega por volta do meio-dia, pois parece que as ruas ficam mais vazias com poucas pessoas transitando pelo arquipélago. Se quiser levar um guarda sol não é uma má ideia, nem sempre as pousadas têm disponível para emprestar. Basta despachar no aeroporto como uma mala normal e sua praia está garantida.

MELHORES PICOS PARA SURFAR

Cacimba do Padre: É onde estão as melhores ondas de Noronha. Apesar das esquerdas serem as mais disputadas, a Cacimba também tem boas direitas tubulares. Dependendo de como a ondulação entra, as direitas no Bode (continuação da praia da Cacimba) são sempre uma boa opção para os regulars. Quando o mar fica muito grande, a onda vem quebrando na Laje da Cacimba ao estilo “Banzai”, em Pipeline. Quando entra na bancada, abre uma parede pra esquerda e um tubo grande (fundo de areia com algumas partes de pedra. Principalmente quando o mar fica grande, as pedras aparecem). Por causa da grande variação de maré, na parte da tarde costuma dar as melhores ondas com ela enchendo. Muita gente deixa pra ir para praia depois das 14 horas, pois é quando o mar e começa a melhorar. No entanto, pela manhã, mesmo com a maré vazia, você pode pegar boas ondas. Durante alguns anos, a Cacimba foi palco do Hang Loose Pro Contest, etapa válida pelo QS, chegando a receber quase 200 inscritos por etapa.

Line-up-quixabinha-Aguá cristalina, visual paradisíaco e tubos perfeitos. Poucos lugares do mundo se comparam à Cacimba do Padre quando quebra clássico. Foto: Marcelo Freire.

Em 2015, Lucas Silveira foi pela primeira vez a Noronha e ao chegar lá ficou sem acreditar que demorou tanto tempo para ir. “É um paraíso… Tiveram alguns dias épicos e, no último, eu e o Pinguim (fotógrafo) ficamos sete horas dentro d’água”, disse ele. Foto: Henrique Pinguim.

A laje da Cacimba. Foto: Annibal.

Nos tubos de Noronha, Bruno Santos se sente no seu habitat natural. Foto: Clemente Coutinho.

Marcos Monteiro tem um sentimento especial pelo arquipélago: “São poucos os lugares em que passo o dia inteiro na praia, mas em Noronha faço isso. Agora não me imagino passar uma temporada sem uma visita.” Foto: Henrique Pinguim.

Thiago Guimarães voando com estilo na Cacimba. Foto: Henrique Pinguim.

Abras: Point break de esquerdas manobráveis e clássicas muito surfadas por locais da ilha. O fundo é de pedra. Geralmente as ondas entram quando o swell está bem grande na Cacimba do Padre. O surf rola quase sempre pela manhã com a maré vazia. Na caminhada até o pico rola um certo perrengue. Para entrar e sair do mar também, por isso é sempre bom ver o caminho certo com algum surfista que já conhece o pico para não passar um sufoco desnecessário. Quem já surfou lá, conhece o potencial desse lugar mágico.

A esquerda perfeita do Abras. Foto: Annibal.IMG_4602-manoelcamposA praia do Abras é uma ótima alternativa nos dias grandes. Foto: Marcus Lavinius.

Rurus: Localizado ao lado do Abras, a direita do Rurus é um pouco mais difícil de quebrar, mas quando o swell entra a onda é boa para manobrar e vem varrendo lá do outside. O único problema é que quando a maré fica baixa duas pedras aparecem bem no caminho das ondas. Então é bom ficar esperto para não deixar as quilhas de presente para Yemanjá.

Toda a beleza do Rurus. Foto: Annibal.

Rurus clássico e nenhum surfista dentro d’água, Noronha é assim. Foto: Clemente Coutinho.

Laje do Bode: Os tubos dessa praia já estamparam muitas páginas de revistas, como a foto da abertura desta matéria. Pegar um barrel com o visual do Morro Dois Irmãos não tem preço! No final de tarde, o sol ilumina o surfista dentro do tubo, uma luz perfeita para os fotógrafos. Rola direitas e esquerdas também.

Existem momentos impagáveis quando se está dentro de um tubo como este. Raoni Monteiro curtindo a perfeição do Bode. Foto: Pedro Fortes.

FranklinSerpa_Bode_HenriquePinguim_D3_3468O baiano Franklin Serpa fazendo bonito nos canudos do Bode. Foto: Henrique Pinguim.

_D3_3810O mestre Fabio Gouveia viajou incontáveis vezes para Noronha e garante: “Nunca fui uma única vez que não tenha rendido um bom material.” Foto: Henrique Pinguim.

Boldró: Fundo de pedra, uma onda bem forte e rápida. Rola esquerdas e direitas, mas a melhor opção é mesmo a direita que quebra quando o mar fica maior. Ás vezes, pela manhã na maré vazia a Cacimba está ruim e no Boldró tem altas, vale sempre dar uma checada nesse pico.

O paulista Junior Faria em sintonia com as ondas do Boldró. Foto: André Portugal.

A praia da Conceição impressiona com sua perfeição. Foto: Clemente Coutinho.

Praia da Conceição: O fundo é de areia e quebra altas ondas para os dois lados. Uma boa opção para fugir do crowd da Cacimba. Na areia tem sempre uma social. Na última semana do ano, rola um final de tarde com som e muita azaração. Corre o risco de encontrar com seu amigo na pousada e ele te contar que você perdeu aquele final de tarde clássico na Cacimba. Mas vale uma investida com certeza.

BrunoGalini_Conceicao_HenriquePinguim_D3_2984O baiano Bruno Galini atravessando a seção mais tubular da Conceição. Foto: Henrique Pinguim.

Cachorro: Uma direita no canto do morro bastante manobravél e divertida. No meio da praia também rola um surf. O surfistas locais costumam surfar bastante por lá. Vale a pena conhecer.

Em 2012, Filipe Toledo já surpreendendo a todos aos 16 anos na época do Prime, o Hang Loose Pro Contest. Foto: André Portugal.

Esquerda do Porto: A esquerda do Porto geralmente quebra quando o mar fica muito grande e todas as embarcações ancoradas ali são obrigadas a ir para o outside a fim de não serem varridas pelas ondas. Em 2010, o palco montado na praia para a apresentação do Rappa na virada do ano foi arrastado pela ondulação que chegou até quase a pista. Vale uma caída para curtir o visual do lugar.

O line up prateado da rara esquerda do Porto. Momento mágico. Foto: Annibal.

LOCALISMO

Como em qualquer outro pico com altas ondas, é sempre bom respeitar os surfistas locais. Mas Fernando de Noronha é um lugar de poucas brigas e a rapaziada local é boa de jogo.

O surfista local Patrick Tamberg sempre mostra muita habilidade e conhecimento nos tubos da Cacimba. Foto: Pedro Fortes.

VIDA NOTURNA

Se você gosta de forró, o Bar do Cachorro esquenta a ilha com o ritmo do nordeste brasileiro. Tem também a pizzaria que em alguns dias rola um som ao vivo e a frequencia é boa. Mas tirando o Réveillon, quando acontece a festa da pousada do Zé Maria e vai até o amanhecer, Fernando de Noronha não tem muita coisa para se fazer de noite. Sair para jantar e dormir cedo é a melhor opção, pois no dia seguinte a Cacimba pode estar bombando!

A grande festa do Réveillon da pousada do Zé Maria. Foto: Annibal.

O QUE FAZER QUANDO O MAR ESTÁ FLAT 

A ilha tem águas claras com ótima visibilidade e é um dos melhores locais do mundo para a prática do mergulho. Existem outras praias para passear em dias de poucas ondas, como a da Atalaia, da Biboca, da Enseada da Caieira, do Meio, do Sancho, do Sueste, entre outras. Sem falar nos atrativos, como trilhas pelo Parque Nacional e histórico culturais imperdíveis, como a Capela de Nossa Senhora da Conceição, Capela de São Pedro, Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, antiga residência do Chefe do Presídio. Também há passeios de barco, com direito para apreciar o balé dos golfinhos e mergulhar de apineia na Praia do Sancho.  E para quem gosta de madrugar, a caminhada  bem cedo rumo ao Mirante dos Golfinhos, o clássico pôr do sol no Mirante do Boldró, o Forte de São Pedro e o Forte dos Remédios.

Transparência na Baía dos Porcos. Foto: Pedro Fortes.

Se você ainda der sorte, pode ver praias que costumam estar flat quebrarem perfeitas como este fundo de pedra ao lado do Porto. Foto: Manoel Campos.