OHANA PUPO

Na cultura havaiana, Ohana significa família e foi este termo que Wagner Pupo tatuou em suas costas. “No Hawaii conheci uma família que tinha uma loja chamada Ohana e eles me explicaram o verdadeiro significado desta palavra. Foi aí que eu decidi tatuá-la”, diz o patriarca. Wagner sabia que isso uniria e tornaria a sua família ainda mais forte. O clã dos Pupo é o exemplo claro de que existe DNA do surf, mas nessa matéria você vai descobrir por que união e determinação também os definem.

Por Rômulo Quadra / Fotos Munir El Hage

FILHO DE PEIXE…

Natural de Itanhaém, São Sebastião, litoral norte de São Paulo, o patriarca Wagner Pupo cresceu à beira-mar e no oceano passou boa parte da sua vida. ‘Vala’, como também é conhecido, começou a se destacar no final dos anos 80, quando fez parte do time do Brasil que foi a Porto Rico para o mundial amador que teve Fabio Gouveia como campeão.  Nos anos 90, ele teve uma brilhante carreira como surfista profissional. Fez parte dos top da Abrasp  por 16 anos, sendo um dos principais atletas da “era do Circuito Super Surf”. Hoje, Wagner vem conquistando o mesmo respeito da época das competições como shaper, tendo seu piloto de teste o próprio filho. Miguel, atleta do WCT, surfa com as pranchas do pai.

Entre os mais chegados, ‘Vala’ é tido como um cara correto e centrado, a única culpa que carrega é a de ter gerado e soltado ao mar três “tubarõezinhos”, opa, melhor dizendo, seus filhos! Da união de 25 anos com Jeane Pupo surgiram descendentes que, de tão ambientados com o mar, mais parecem “predadores” em competições de surf: Miguel (23 anos), Dominik (19) e Samuel (14), três competidores natos.

Esposa e filhos sempre fizeram parte da sua vida como surfista “Pro”. Eles o acompanhavam em suas andanças pelo mundo atrás dos campeonatos de surf e funcionavam como o “ponto de equilíbrio” necessário para todo atleta. Durante uma surf trip em família ao Hawaii, aprenderam o significado do termo Ohana e a identificação foi imediata. “No Hawaii conheci uma família que tinha uma loja chamada Ohana e eles me explicaram o verdadeiro significado daquela palavra. Foi aí que eu decidi tatuá-la nas minhas costas. Eu sabia que com isso (fazendo a tattoo) nos uniríamos cada vez mais e deu certo”, diz Wagner.

Jeane é o alicerce dos Pupo, pois, enquanto o pai estava ocupado entre o shaper room e as competições, ela ficava responsável pela educação dos filhos e também pelo treinamento da molecada, assim passava horas na praia. “A parte técnica eu fazia muito bem, mas o dia a dia de levar a criançada para surfar era com ela, que é a grande responsável pelo crescimento deles”, completa ‘Vala’.

“A minha maior fonte de inspiração dentro do esporte sempre foi meu pai. É legal ver a força dele em seguir em um novo caminho. Com certeza, essa renovação foi com intuito de ajudar a gente.” – Miguel Pupo.

A HORA DA RENOVAÇÃO

Ainda no fim de sua carreira como atleta, perto dos 40 anos, Wagner passou a estudar o design das pranchas. Em certo momento, um amigo o chamou para trabalhar como “back shaper”, foi daí que surgiu a ideia para fazer a sua marca de prancha a OHP, que é a abreviação de Ohana Pupo. Mas sabia que para evoluir precisava conhecer e meter a mão na massa: “Trabalhei com vários shapers de peso, como o Matt Biolos e o Simon Anderson, e aprendi muita coisa com eles. Eles gostavam do jeito que eu shapeava. Diziam que eu entendia por que surfava e consegui desenvolver meus próprios outlines, minhas próprias curvas. Cheguei a competir com as minhas próprias pranchas.”

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Hora de criar, pai e filho sempre trocam ideias no shape room. Crédito: Arquivo Pessoal.

Seu primogênito Miguel, atleta do WCT, utiliza os foguetes shapeados pelo pai nas competições e não economiza elogios. “A minha maior fonte de inspiração dentro do esporte sempre foi meu pai. É legal ver a força dele em seguir em um novo caminho. Com certeza, essa renovação foi com intuito de ajudar a gente. Diante de tanta experiência adquirida no circuito profissional, ele sempre me deu toques como técnico e quando percebeu outra chance de nos ajudar foi em frente”, conta Miguel. Mas os outros dois filhos não ficam de fora, ambos também competem com pranchas OHP.


Homenagem da mãe Jeane Pupo para o seu filho Miguel no dia de seu aniversario:

“Agradeço a Deus por ter me dado neste dia você de presente: 19/11/91. Colocamos um mosquiteiro da mesma cor para combinar, estava tudo pronto para receber o tão esperado Miguel Pupo. Foi nesse dia que você deu o ar da graça, com suas bochechas rosadas, gordinho e muito, mas muito tranquilo. Na saída do hospital, seu pai fez questão de irmos de praia em praia apresentando você ao mar, como se já soubesse seu destino. Destino? Não sabíamos qual seria. Eu, uma menina de 17 anos, e seu pai, com seus 23, nesse dia olhando você dormindo naquele cesto, nós percebemos a responsabilidade que seria cuidar e de te fazer um cidadão. Foi ali que Ohana Pupo começou e percebemos que formávamos uma família. Destino? Foi bem generoso conosco. Deus abençoe meu filhão neste dia e em todos os anos da sua vida.”


DIFERENÇAS ENTRE GERAÇÕES

Filhos de um ex-surfista profissional e shaper, a linhagem Pupo, que dá as caras para o mundo, teve todo o suporte para alcançar o pódio. Mas a realidade do pai foi bem diferente. De origem humilde, o acesso de Wagner aos equipamentos para o aprendizado e a prática do esporte foi através de muita luta. “Quanto aos meus filhos foi diferente. Vivemos outra época, temos mais condição e eles têm um pai surfista, então, foi tudo mais fácil. Prancha para eles nunca faltou. Hoje o esporte tem um incentivo maior também”, fala Wagner, que ganhou seu primeiro campeonato na Praia do Sonho em Itanhaém, com uma prancha emprestada, derrotando Picuruta Salazar.

O equipamento é peça fundamental do atleta e, apesar de não se aventurar com a plaina como o pai, Miguel sabe da importância em adquirir conhecimento sobre a fabricação do seu “instrumento” de trabalho. “Ainda não me arrisquei a fazer uma prancha, mas sempre que eu estou aqui em casa acompanho todo o processo de fabricação. Graças ao meu pai passei a entender melhor do meu equipamento”, explica Miguel Pupo.

ENTRE OS ESTUDOS E AS ONDAS

Foi-se o tempo em que atleta descartava os estudos., Jeane e Wagner ficaram em cima dos estudos dos filhos mais velhos, Miguel e Dominik, e hoje não dão mole para Samuel, o caçula. “O Miguel sempre foi muito estudioso, a gente nunca teve muito problema com ele. Quando estava no Brasil, ele estudava dois períodos, de manhã e de noite, para poder surfar de tarde. Ele até hoje leva grandes amigos dos tempos de escola. O Samuel até gosta, mas agora o atleta tem muito mais compromissos com campeonatos e viagens, diferente da época do Miguel, em função da evolução do esporte. Não é por ser mãe, mas eles são muito dedicados naquilo que pegam para fazer”, dia a mãe babona.

E o pai completa: ” O Miguel sempre foi muito estudioso, a gente nunca teve problema com ele. Partiu dele a vontade de terminar o colégio para depois se dedicar integralmente ao circuito. Já para o Samuel ir a escola é uma luta, mas acho que são gerações diferentes e essa garotada quer antecipar as coisas, até mesmo pela ascensão do esporte e por ter contato direto com o Miguel e o Gabriel que chegaram ao WCT. Acho que a própria mídia força o ingresso deles cada vez mais novos. Mas a molecada tem que estudar, com certeza.”

Já Dominik é mais uma menina que sofre com esses altos e baixos do surf feminino no mundo. A pouca exposição da categoria na mídia, a falta de incentivos e um circuito não consolidado, a obrigaram a trilhar caminhos diferentes dos irmãos. Hoje, aos 18 anos, cursa Educação Física, mas a vontade de ajudar e estar presente na vida competitiva dos irmãos é tão grande que brotou o desejo de uma segunda formação: a de  fisioterapeuta. “Dominik quer estar junto dos irmãos nas competições mais para frente e dar um respaldo para eles no treinamento, caso eles sofram alguma lesão ou algo nesse sentido. Mas ela surfa muito! Mesmo sem treinar, vai lá e ganha os campeonatinhos dela”, comenta o pai orgulhoso.

“Hoje o foco é o Samuca. Afinal, a atenção e a experiência passada ao irmão mais velho têm que serem passadas ao Samy também. O Wagner se desdobra como pai, além de trabalhar e atender seus clientes da oficina de pranchas.” – Jeane Pupo.

LAÇOS FAMILIARES

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Como de costume, a família reunida dentro d’água. Crédito: Arquivo Pessoal.

Assim como em qualquer família, cada membro tem suas responsabilidades e Miguel sabe muito bem isso. “Por ser o mais velho, eu sempre tento dar bons exemplos aos meus irmãos, mas confesso que às vezes essa cobrança fica um pouco chata. Me cobro e não posso mostrar um caminho errado a eles”, fala. O irmão caçula, Samuel, foi o grande destaque em 2014 no Grom Search, o principal Circuito Sub 16 do país, disputado em três etapas e com duas vitórias. Samuca, aos 14 anos, já conta com o patrocínio da Rip Curl e deve seguir os mesmos passos do pai e do irmão. “Meus pais o levaram para Portugal e a França, então ele está vivendo um pouco da minha história também e quem sabe um dia poderá estar lá”, diz Miguel.

Para quem conheceu Wagner nos muitos anos que ele competiu, sabe que a voz mansa e o semblante tranquilo são características suas que nunca mudavam, mesmo na hora que o bicho pegava dentro d’água.  Essa tranquilidade ajuda em outra relação que aproxima ainda mais essa família: a de pai técnico. “Ele ressalta o erro bem depois de ter acabado a bateria, já que na hora os ânimos estão exaltados (risos). O Wagner sempre foi técnico do Mig, mas hoje, aos 22 anos e competindo desde os sete, ele já não tem muito que aprender sobre as competições. Eles só acertam alguns detalhes, decidem onde estão as melhores ondas ou que prancha usar e analisam os adversários. Hoje o foco é o Samuca. Afinal, a atenção e a experiência passada ao irmão mais velho têm que serem passadas ao Samy também. O Wagner se desdobra como pai, além de trabalhar e atender seus clientes da oficina de pranchas,” disse a mãe, orgulhosa do maridão.

O primogênito Miguel apareceu para o mundo em 2009, no top 100 da Surfer Magazine. Em 2011, ele entrou para o WCT, no corte do meio do ano, junto de Gabriel Medina e John John Florence. Nessa mesma época, Miguel ficou conhecido como ‘Papa Prime’ por ter faturado o Nike 6.0 Pro em Lowers Trestles e o O’Neill Santa Cruz, ambos em 2011, além do Hang Loose Pro Contest de Fernando de Noronha em 2012. Para o jovem, a Ohana foi a base para suas vitórias. Sempre que possível, a família o acompanha nos campeonatos. Mesmo quando tudo deu errado, ela estava presente dando forças e tranquilidade. O top WCT explicou: “Minha família está sempre me ajudando e tem total influência sobre mim nessa caminhada. Na maioria das etapas, eu tenho pelo menos a presença da minha mãe ou do meu pai. Sei que independente do resultado, eles vão sempre me amar e dar forças, e isso me deixa feliz e tranquilo para cumprir minhas funções. Na verdade, a Ohana se estende para todo mundo que me apoia, meus amigos… De certa forma, para mim ela significa a união da minha tribo do surf.”