PSYCHIC MIGRATIONS – ENTREVISTA YAGO DORA

Existem duas informações que você não pode deixar de saber este mês. Primeiro, estão rolando as premières do Psychic Migrations no Brasil (todas as informações estão em volcom.com/psychicmigrations). Após quase dois anos de gravações, o novo longa de surf da Volcom já é considerado um dos melhores filmes de 2015, um ano recheado de produções de alto nível, como Cluster, a obra-prima de Kai Neville.

Segundo, o paranaense Yago Dora é o primeiro brasileiro a ser protagonista em um dos tão aclamados filmes da marca californiana em Psychic Migrations. Assim, aos 19 anos, ele espera abrir as portas para os brasileiros começarem a conquistar seu espaço também nas produções internacionais, além das competições. Antes do lançamento do longa, o renomado fotógrafo californiano Tom Carey já tinha avisado: “Yago será uma grande estrela do surf depois da estreia desse filme.”

Por Luís Fillipe Rebel / Fotos: Tom Carey


Psychic Migrations terá quatro premières aqui no Brasil. A primeira já rolou no dia 23 de outubro no Parking Lot (conhecido como food truck) na Lagoa da Conceição em Florianópolis, Santa Catarina, e foi um sucesso. Agora o filme passa pelo estado de São Paulo nas datas 6 e 10 de novembro no All Kone em Maresias e na Volcom São Paulo Store na capital paulista, respectivamente. Por fim, a “psicose” chega ao Rio de janeiro em 18 de novembro.


Yago Dora nas rampas de Porto Rico, que renderam algumas das melhores sessões de aéreos do filme.

Quando o assunto é inovação e high performance reunidos em um longa-metragem, os filmes da Volcom estão no imaginário de qualquer surfista fissurado na evolução do esporte. Stone Baloney, Magna Plasma, One Hundred Fifty Six Tricks, The Bruce Movie, BS!, dentre outras produções, apresentam o fino do surf mais moderno de suas épocas. Os fãs, porém, estão em abstinência desde BS! em 2009, o último longa de surf da marca. Imagina então o que vem por aí após seis anos de espera. Com a direção entregue nas mãos do premiado americano Ryan Thomas, podemos ter certeza de criatividade, perfeccionismo, surf na veia e uma trilha sonora muito bem escolhida. Para completar, pela primeira vez, um brasileiro recebe destaque de protagonista em um filme da Volcom Internacional. Você não vai querer perder isso!

Gravado em lugares como Antilhas, Indonésia, Austrália, Polinésia e Américas, “o filme tece a expressão física e empolgante de encontrar ondas em uma odisseia cerebral percorrida através das paisagens e texturas”, segundo a definição dada pela Volcom. O time de surfistas escalados é de primeira linha com nomes como Dusty Payne, Mitch Coleborn, Ozzie Wright, Nate Tyler, Carlos Muñoz, Alex Gray, Miguel Tudela, Gavin Beschen, dentre outros. Tem até a presença do 11x campeão mundial Kelly Slater, além, é claro, da nossa estrela do free surf internacional Yago Dora, com quem conversamos diretamente das gravações em Lakey Peak, Indonésia. Leia abaixo a entrevista feita para a edição de agosto da Revista Surfar.


“Yago Dora é uma aberração da natureza. Ele é como um ‘Robotron’. Tem seis pés de altura, 19 anos e seus ossos são feitos de borracha, mesmo que eles tenham quebrado. Ele destrói em tudo. É a mistura entre Damian Hardman e Christian Fletcher. Pode dar oito rasgadas para a praia e os aéreos mais loucos que você já viu. Ele é absolutamente um monstro (risos).” Ozzie Wright


Os aéreos retos de Ozzie Wright são um espetáculo à parte, assim como o visual das ilhas de Mentawai.

(Entrevista realizada antes da estreia do filme)

SURFAR: Ano passado, o True To This já teve uma sessão contigo, mas o Psychic Migrations é a primeira produção exclusiva de surf da Volcom com uma participação sua. O que significa para você fazer parte dos filmes internacionais da marca?

YAGO DORA: Na verdade, estar num filme de surf da Volcom é algo que eu nunca tinha imaginado. Quando comecei a surfar, já tentava assistir a todas as produções novas que lançavam e via sempre essa galera. Nunca pensei que ia estar ao lado deles gravando para o mesmo longa que eles.

Além de participar, você é um dos protagonistas e está aparecendo nos principais anúncios. Como está se sentindo ao viver tudo isso?

Estou muito ansioso. Acho que nunca me senti tão ansioso assim. Tive algumas ondas no True To This, mas esse é o primeiro filme da Volcom em que sou um dos atletas principais. Então, estou morrendo de vontade de assistir ele inteiro. Fico me mordendo aqui querendo que fique pronto logo para saber como é que vai sair, quantas ondas eu vou ter lá dentro (risos)…

 O estilo de Ryan Burch fica ainda mais bonito a bordo das diferentes pranchas que ele shapeia. Crédito: Brian Bielmann.

O Dusty Payne, aos 21 anos, ganhou o prêmio Best Male Performance da Surfer Poll com o BS!, dirigido pelo Ryan Thomas. Você também espera alcançar um reconhecimento muito grande? Quais as expectativas pensando na sua carreira?

Quantos mais filmes de surf você estiver fazendo parte, mais será reconhecido pela sua carreira e seu surf. Eu quero é me esforçar para o longa mostrar o que eu consigo fazer. Tentar o meu melhor em cada sessão de forma que renda o máximo para o filme, sem pensar em ganhar algum prêmio por isso. É mais para as pessoas verem como é o meu surf.

Depois de começarmos a dominar o surf competição, acredita que chegou a hora dos brasileiros também conquistarem espaço nos filmes internacionais?

Com certeza. Isso é uma coisa que me deixa bem feliz. Saber que estou sendo reconhecido pelo meu surf e não só por resultado em competição, como a maioria dos brasileiros. Agora, chegou a hora de sermos reconhecido por estarmos sempre lançando vídeos e fazendo parte dos filmes internacionais para todo mundo saber que a gente também gosta de surfar e se divertir. Não só de botar a lycra e ficar se mordendo para passar bateria, tirar nota… Todo brasileiro, apesar dessa fama de competidor, gosta de estar na água para se divertir.


“Yago Dora está rindo o tempo todo e ama demais o surf. É o primeiro na água e o último todas as vezes. Está melhorando muito o seu surf, treina com o pai dele. Acho que vai ser um bom competidor também, e quero ver ele mandando muito bem no QS. Aqui em Mentawai, Yago está mandando vários aéreos. Como os brasileiros gostam de mandar, sabe (risos)? Está pegando ondas pequenas, ondas maiores e jogando aéreos insanos. O seu backside também está mais forte e a linha dele está conectando mais manobras. Eu posso ver que o Yago está trabalhando o surf dele.” – Carlos Muñoz


Voa alto o australiano Mitch Coleborn?

Nós do Brasil sofremos muitas críticas em relação ao estilo, mas os gringos se amarram no seu. Conquistando esse espaço em filmes de free surf, os brasileiros podem começar a mudar esse estereótipo?

Claro que sim. Quanto mais surfistas do Brasil estiverem com um bom estilo, mais os outros brasileiros vão querer ter um legal também. Acho que quando a galera compete muito, acaba deixando um pouco de lado essa preocupação e se liga mais na expressão das manobras para conseguir tirar mais notas. Mas a evolução é rápida se você concentrar em pegar onda de qualidade e ficar vendo suas imagens.

Você acha que o brasileiro realmente tem um estilo feio e é algo que precisa melhorar?

Eu acho que sim. A maioria dos brasileiros ainda tem um estilo um pouco estranho. Às vezes nem é feio, mas é um pouco diferente, um pouco mais afobado. Com certeza, o nosso tipo de onda interfere muito nisso porque são muito rápidas. A gente tem que ser ágil e mexer muito a prancha para fazer acontecer. Já os gringos têm ondas com muito mais espaço. Então, nós brasileiros temos que viajar, pegar essas ondas de qualidade e praticar muito para conseguir chegar a um estilo legal.

Como está sendo o trabalho com o Ryan Thomas para esse filme?

Ryan Thomas é como uma lenda nos filmes de surf. Ele é sempre muito criativo e quer fazer tudo ficar perfeito. Algumas vezes ficamos três horas para fazer um take de 10 segundos, mas temos que respeitar isso. Sabemos que ele vai aparecer com algo insano. É o diretor mais perfeccionista que já vi. O que ele me pediu foi para ter o aéreo como manobra principal porque a maioria das trips do filme já tinha mais tubos.

Qual a ideia dele para o filme?

A ideia dele é performance. Mostrar o máximo de performance possível sem ter uma historinha e tal. O foco é no surf mesmo.

Essa foto rendeu a primeira capa do Yago em uma revista internacional, a inglesa Carve Magazine.


“Especialmente nessa trip em Mentawai, ele está lá fora todos os segundos do dia. Assim que o barco para, o moleque está surfando, dando backflips e você não pode nem tentar compreender, apenas tem que manter o seu próprio plano de jogo. Ele vai fazer a tua mala na água nove vezes em dez. Eu estou tentando focar na maneira que todos estão surfando e Yago está definitivamente provando para mim várias e várias vezes que ele é o futuro. Um dos garotos mais legais surgindo do Brasil. Estou muito feliz com o caminho que ele está tomando. Não foi direto para o QS, compete um evento ou outro e está fazendo certo ao meu ver. Amo o fato dele estar botando tempo e esforço nesse filme. Sinto que vai ser fantástico para a carreira dele em tudo, a presença dele nos Estados Unidos, a presença mundial… O moleque é muito insano! Estou amarradão de ter uma parte no filme com ele.” – Mitch Coleborn


Mitch Coleborn buscando a visão do tubo em Mentawai.

Como foi feita a escolha das viagens que você fez? Pode destacar o melhor de cada uma?

Fui convidado para algumas trips e tive disponibilidade para ir em três entre os campeonatos e esse tipo de coisa. As três foram ondas de rampa e o que mais precisava para complementar o filme eram as manobras, pois já tinha bastante tubo. Porto Rico tinha as ondas que mais ofereciam sessões de aéreos pelo fato de o vento estar sempre muito bom nas esquerdas. Também surfamos com pouco crowd, então tínhamos bastante oportunidade de pegar as rampas. Os melhores aéreos vieram dessa trip. Já Mentawai é sempre muito irado. A gente pegou vários dias em Macaronis, nada de muito clássico, mas bem divertido. E agora em Lakey foi um pouco mais fraco de onda. A direita, que geralmente é muito boa para dar aéreo por causa do vento, não estava encaixando muito bem na bancada, acho que a direção do swell estava um pouco diferente. Mas, mesmo assim, vieram algumas boas e a gente conseguiu render bastante. Essa é a última trip do filme, que já será lançado em setembro. O Ryan já editou bastante coisa e só está esperando as imagens dessa viagem para finalizar. Agora é esperar para ver o resultado final.

O Mitch disse que você está fazendo tudo no tempo certo por não ter focado direto no QS. Ele gosta de ver a sua dedicação e esforço para esse longa-metragem. Essas trips do o filme te deixam mais preparado para se dar bem nas competições?

Estar gravando para um filme tão importante te puxa sempre a estar dando o seu melhor em toda sessão. Acho isso muito legal para a própria evolução. Você vai criando uma confiança em si mesmo por estar cada vez mais completando as manobras e aprendendo outras. A gravação só te instiga a dar o seu máximo e isso influencia não só no free surf, mas também na competição, porque na hora da bateria você vai estar muito confiante com o seu surf no pé.

Missão dada é missão cumprida! Ryan Thomas pediu para Yago focar nos aéreos e o brasileiro executou a tarefa com perfeição.

O que você aprende surfando ao lado de caras como Ozzie Wright, Mitch Coleborn e Nate Tyler?

Sempre busquei muito assistir aos vídeos desses caras desde quando eu era muito pequeno. São surfistas que me inspiram muito, o Ozzie, o Mitch, o Nate Tyler. Agora, poder compartilhar as ondas e ver a realidade é muito irado. Saber que não é só no filme, que eles são muito bons mesmo (risos). Os caras surfam demais e estão sempre ali puxando o seu limite. Não é só a convivência dentro d’água, mas também fora dela por poder trocar experiência com esse tipo de pessoa. Acho isso muito legal.

Para terminar, manda um recado para geral assistir ao filme. Vende o “peixe”!

Aí galera, sejam como eu e fiquem muito ansiosos para assistir o Psychic Migrations. Acho que foi o filme mais esperado dos últimos tempos da Volcom. . Com certeza vem coisa boa por aí. Fiquei morrendo de vontade de assistir, e vocês assistam também (risos).

Yago espancando a cara da onda com seu estilão.