QUEBRANDO PARADIGMAS

Alunos do projeto de inclusão social de surf school do Recreio dão show de atitude e determinação.

As limitações da doença não intimidaram Davi. Além de surfar, ele anda de skate e é tornar atleta oficial paraolímpico de natação.

Por Viviane Freitas / Fotos: Luciano Cabal

Superação no dicionário quer dizer o ato de progredir, ultrapassar um limite, recuperar, mudar de uma situação ruim para uma melhor. Davi Teixeira, nove anos, nasceu portador da Síndrome da Brida Amniótica, uma rara doença congênita ocasionada pelo aprisionamento de partes do feto, por anéis fibrosos do saco amniótico do útero, o que provocou o atrofiamento dos seus membros. Os médicos diagnosticaram a doença aos cinco meses de gestação, o que deixou toda a sua família em choque, principalmente Denise Teixeira, mãe e parceira.  “Foi muito difícil saber que seu filho amado já nasceria com os membros atrofiados e que não se desenvolveriam. Os médicos me indicaram abortar, mas busquei forças na fé”, lembrou Denise.

Para os incrédulos, tais limitações condenariam Davi a uma rotina bem difícil, mas ele não se deixou intimidar pela doença. Influenciado pelo nosso campeão mundial Gabriel Medina, Davi decidiu que também iria desfrutar do “esporte dos reis” e assim o fez. “O que eu sempre digo às pessoas é que devemos superar nossos medos porque as oportunidades não se repetem”, comentou Davi, durante nossa entrevista após mais um dia de muito surf, no lambe-lambe do Canto do Recreio, zona oeste do Rio de Janeiro.

Pela forma serena como encara a vida, Davi participa de palestras motivacionais.

Superar a si próprio, sua mente, seu corpo, seus medos… Atitudes que tornaram o carioca torcedor do Vasco da Gama a se tornar atleta oficial paraolímpico de natação do clube de regatas. Inquieto, Davi divide seu tempo com a natação, surf e skate, além do quarto ano do ensino fundamental. Pelo seu exemplo de vida, determinação e forma serena como encara a vida, ele é constantemente convidado para discursar em palestras motivacionais e já falou para dezenas de funcionários de empresas, como a White Martins e Correios. “Eu parei de trabalhar para acompanhar meu filho, pois sei que ele precisa e merece curtir a vida. Deus me deu esse presente e vou fazer dessa missão a melhor possível”, comentou a mãe Denise.

Com o skate, Davi já ganhou algumas medalhas e adora o rolé na pista do Parque de Madureira, mas adrenalina mesmo ele sente quando o assunto é surf. “Quando estou na onda, eu penso que estou voando, a melhor sensação do mundo! Quero surfar profissionalmente dentro das minhas limitações, quero ser bom em tudo o que eu fizer e sei que para realizar os seus sonhos basta acreditar que você consegue”, concluiu.

Mesmo com o braço direito amputado, Carol consegue se adaptar e fazer tudo o que gosta.

SURFISTA DE ALMA

Praia do Arpoador lotada em um belo dia de sol e ondas com pouco mais de dois pés. Cenário perfeito para a molecada se divertir em um campeonato de surf amador. E foi o que fez Caroline Vitória Lima Almeida ao dropar a maior esquerda da série, agitando a galera que vibrou com a atitude e determinação da pequena de apenas nove anos. “Eu não sinto medo, apenas uma sensação muito boa, uma emoção muito forte que eu nunca havia sentido antes”, explicou Carol, que também ama skate e sonha em surfar no Hawaii com o amigo e parceiro de surf Diego Silva.

Toda essa cena faria parte do cotidiano em um dia de praia típico do Rio de Janeiro. Mas trata-se de uma pequena guerreira que sofreu um golpe do destino e, em seus primeiros 15 dias de vida, foi diagnosticada com trombose e teria seu braço direito amputado. “A Caroline nasceu prematura, com cinco meses e meio. Devido à trombose, ela precisou amputar o bracinho direito, mas mesmo assim conseguiu se adaptar e fazer tudo o que ela mais gosta”, lembrou Márcia Almeida, mãe de Carol.

Apesar da pouca idade, a dupla é um exemplo de vida, determinação e superação.

DE SWELL A SWELL

Tudo começou em um dia tranquilo de praia no Recreio dos Bandeirantes, quando ambos encontraram a professora Eveline Galo Teles, sócia e fundadora da Escolinha de Surf Jerônimo Teles. Os 230 alunos se dividem em turmas e horários distribuídos ao longo do dia. Destes, 15 são Portadores de Necessidades Especiais, ou PNE, e fazem parte do projeto de inclusão social da escola de surf. “Quem quiser aprender basta vir e se matricular, aqui não existe limitações, afinal, isso está mesmo na cabeça das pessoas. E também não tem essa de separar alunos, faço questão que estejam todos juntos”, comentou Eveline.

“A maior gratificação do meu trabalho é ver a alegria deles pegando onda, realizando sonhos e quebrando todos os paradigmas e preconceitos.” - Eveline Teles.

Há 19 anos funcionando de swell a swell, a escolinha do Jê iniciou atletas como os surfistas profissionais Diego Silva, Pedro Scooby, Pedro Calado, Lucas Silveira e Biel Garcia. “Nossa propaganda é no boca a boca e contamos com toda a estrutura necessária para quem quer aprender a surfar. E não importa as condições do mar, pois só não rola aula se o mar estiver de ressaca ou em dias de trovoadas”, explicou Eveline. Além disso, segundo ela, o clima de família contribui para o espírito de união onde um cuida do outro e todos se ajudam. “A maior gratificação do meu trabalho é ver a alegria deles pegando onda, realizando sonhos e quebrando todos os paradigmas e preconceitos”, festejou a professora, que se despediu para mais uma sessão de muito surf no seu escritório.

Caroline e Davi estão entre os 15 alunos portadores de necessidades especiais do projeto de inclusão social da escola de surf.