SEGREDO EM ALTO MAR

A redação da Surfar estava a pleno vapor com o fechamento de uma nova edição quando nosso parceiro Gustavo Roque, do site SurfGuru, deu o aviso: “Tojal, vai entrar um swell animal aqui pro nordeste. Acho que vale você investir!” Na mesma hora começamos a conectar alguns surfistas nordestinos e descobrimos que eles já estavam prontos e a caminho de um pico pouquíssimo explorado.

Seguimos direto para o aeroporto e, quatro horas depois, lá estava Tojal de mala e cuia em Natal, totalmente perdido e apenas com o nome de uma vila de pescador anotado em um pedaço de papel. Não fazia ideia de onde era o pico, mas tinha certeza de que algo especial estava para acontecer.

Confira as fotos e o relato do fotógrafo Pedro Tojal, que conta tudo sobre esse “Segredo em Alto Mar”!

Imagem em destaque: A viagem de 12 horas do pernambucano Paulo Moura até uma remota vila de pescador no Rio Grande do Norte foi recompensada com uma session que entrou para a história. Foto: Rogerson Barroso.

Em 2009, vi um vídeo que ironicamente se chamava “Brasil Secreto”. Digo irônico porque logo no começo do filme aparecia o nome do tal secret piscando em letras garrafais. Fiquei com aquela onda na cabeça. Era um tubo muito perfeito que não parecia ser no Brasil. Passei a pesquisar bastante sobre o pico e vi que ele só funcionava na época em que normalmente estou no Hawaii.

Alexandre Ferraz também veio de Recife para conhecer o power dessa onda oceânica. Foto: Clemente Coutinho.

Descobri também que é uma bancada em alto mar, no nordeste brasileiro, e que fica perto de diversas plataformas de petróleo, inclusive foram os mergulhadores que trabalham por lá que descobriram e passaram os primeiros relatos sobre a região.

Pegar ondas perfeitas em alto mar é algo raríssimo no Brasil.

Anos se passaram e por obra do destino chegava a hora de ver de perto essa tal onda secreta e registrá-la na Surfar. Assim como eu, alguns fotógrafos e surfistas nordestinos também estavam indo explorar essa onda pela primeira vez e, literalmente, me infiltrei nessa barca… (risos)! Não poderia perder isso por nada. Essa seria a primeira vez que surfistas profissionais estavam indo com equipamentos certos para surfar esse tesouro que fica a mais de 30 km mar adentro.

 

Depois de negociar com todos os envolvidos, consegui carona até a vila de pescador e também um lugarzinho no barco. Em troca faria uma matéria sem explanar o pico, com as imagens dos fotógrafos de lá, apenas mostrando as belezas do litoral potiguar e o potencial da onda.

Paulo Moura, o ‘Véio’, usou toda sua experiência para surfar e rebocar a galera nas melhores ondas. Foto: Clemente Coutinho.

A barca foi formada pelos surfistas Paulo Moura (ex-WCT), Eduardo ‘Rato’ Fernandes, Alexandre Ferraz, Rogério Soares, Paulo Moura (o ‘Véio’) e Piet Snell, além dos fotógrafos Clemente Coutinho e Rogerson Barroso. Passamos duas noites na vila de pescador com aquele tratamento VIP típico do Nordeste, comendo muito camarão, peixe e tomando cerveja gelada.

Mas não foi para tirar férias que viajamos tanto tempo! Queríamos ver a onda de perto e, na primeira madrugada, estávamos todos “pilhados” e prontos para o que viesse. Às três da manhã saímos da vila rumo ao alto mar. Paulo Moura e o ‘Véio’ foram com seus jet skis e o resto da galera em uma traineira de pescador.

‘Rato’ Fernandes segurou na base depois desse air drop. Foto: Rogerson Barroso.

Depois de duas horas navegando, eu e Clemente estávamos na proa e vimos a primeira baforada quando faltavam 30 minutos para chegar no pico. Ainda estava amanhecendo quando todos começaram a vibrar e gritar. Parecíamos crianças entrando em um parque de diversões pela primeira vez.

Logo que ancoramos tivemos a melhor visão que poderíamos ter. Ondas com mais de 10 pés e vento terral. Só tinha casca-grossa na barca, mas todos estavam tensos.

‘Véio’ e ‘Rato’ Fernandes foram os primeiros a fazer tow-in, depois o Rogerinho e o Moura foram conferir de perto as ondas oceânicas que quebravam na rasa bancada.

Alexandre Ferraz e Piet Snell foram pegar na remada. Conseguiram surfar algumas ondas, porém a corrente e a ausência de referência em terra dificultavam muito o posicionamento.

Paulo Moura foi até o último momento para atacar a onda. Foto: Rogerson Barroso.

Todos pegaram altas ondas e alguns até conseguiram entubar. Após essa sessão histórica, chegamos a algumas conclusões sobre o pico. O surf tem que ser de manhã bem cedo, o jet ski é fundamental para aproveitar ao máximo as ondas, já que o perrengue para chegar é grande, e a maré deve estar bem seca para que a onda fique mais tubular.

Rogerinho Soares abandonou os negócios para fazer essa surf trip inédita. Foto: Clemente Coutinho.

Outra coisa que vimos foi que existem diversas outras ondas na área. O pico que fomos é apenas um pedacinho de um reef oceânico com mais de 100 km de extensão, então ainda tem muito “tesouro” para ser descoberto.

Eduardo ‘Rato’ Fernandes manobrou forte nesse paredão oceânico.