SURF TERÁ MUDANÇA NO CONTROLE ANTIDOPING PARA TÓQUIO 2020

Surf tem tolerância a “drogas recreativas” e testes apenas durante as etapas do Circuito Mundial. COI trabalha para adaptar as regras.

Cada vez mais em ascensão e novidades do programa olímpico dos Jogos de Tóquio 2020, o surf e o skate, transformaram-se nas últimas décadas em esportes de alto rendimento. Atletas vivem dos patrocínios, vídeos produzidos e ganhos das modalidades, deixando para trás o “amadorismo”. (Em destaque: Raoni Monteiro. Foto: Cestari/WSL)

Só que quando o assunto é doping, todas duas modalidades têm regras que precisam ser revistas para se adaptar à realidade olímpica e ao controle da Agência Mundial Antidoping. O surf até faz testes em laboratórios credenciados pela Wada, o que começou em 2013, mas posssui um modelo diferente dos demais esportes que estarão na Olimpíada de 2020, tendo uma tolerância para maconha e cocaína. Já o skate, por questões financeiras, nunca teve essa regulação e não faz controle antidoping em suas competições.

Thomas Bach, presidente do COI. Foto: AP.

“Todas as federações internacionais assinaram o código da Wada e tem que cumprir as regras desse código. Nas Olimpíadas, todos os atletas estão sujeitos ao código do Comitê Olímpico Internacional com relação ao doping”, disse o COI.

A Wada esclarece que não é uma agência de testes antidoping, mas sim responsável pela política de controle no esporte em geral em prol do jogo-limpo.

Ainda segundo a entidade, as organizações são obrigadas a realizar uma avaliação de risco adequada de doping dentro de seu esporte, além de programas eficazes que testem as substâncias certas no momento certo.

Vale lembrar que até os dias de hoje nenhum surfista foi suspenso pelo uso de maconha ou cocaína. Os únicos que sofreram punições em relação a doping foram o saquaremense Raoni Monteiro no ano passado e o catarinense Neco Padaratz em 2005, ambos pelo uso de substâncias que melhoravam o rendimento.

O catarinense Neco Padaratz. Foto: Kisrtin/WSL.

“Para os testes fora de competição, a organização de cada evento cria um modelo que faz com que os atletas tenham que dizer onde estarão, preenchendo um formulário chamado (RTP) , onde eles podem ser encontrados e testados a qualquer momento, não apenas durante as competições. O teste surpresa, sem aviso prévio, é o alicerce de qualquer programa antidoping bem-sucedido”, explicou a Wada, que desde maio de 2013 “relaxou” a política para que atletas que fazem o uso da maconha não sem serem pegos em testes ou suspensos de competições, deixando o limite de THC, substância da canabis, de 15 nanogramas por mililitro para 150 nanogramas.

Logo Tókio 2020.

Surf não faz testes fora do período de competição

Para 2020, a cúpula do COI, junto à Associação Internacional de Surf (ISA), está trabalhando para avaliar os critérios de classificação e algumas das regras que serão adaptadas para o evento. E a WSL, que representa dois mil surfistas profissionais, incluindo a elite e a divisão de acesso, liberou os seus atletas para a Olimpíada do Japão e se colocou à disposição para ajudar. Entre as mudanças pelas quais o surf terá que passar, a política antidoping ainda é uma questão polêmica e não definida.

A ISA se opõe ao uso de substâncias e métodos proibidos e apoia incondicionalmente a postura do COI e da Wada. Desde 2013, a WSL adotou uma política antidoping, com exames regulares ao longo da temporada. O surf tem algumas peculiaridades e uma tolerância para o uso das chamadas “drogas recreativas”, como a maconha e a cocaína. O surfista só é punido a partir da terceira vez que é pego, já que é considerado que estas drogas não trazem uma vantagem à performance. Nas duas primeiras, ele só é advertido e pode ser encaminhado para um programa de reabilitação. Já as substâncias que melhoram o desempenho, como anabolizantes e esteroides, provocam uma dura punição, como ocorreu com Raoni Monteiro, suspenso por dois anos.

Renato Hickel. Foto: dn.pt/desporto.

Vale lembrar que o surf não faz testes fora do período de competição, então, não preenche totalmente o que pede o código da Wada.  Atualmente um surfista fora de uma etapa do Circuito Mundial  ou de “férias” não é testado pela WSL. Renato Hickel, comissário adjunto da World Surf League, também falou sobre a política antidoping da WSL.

“Os atletas podem testar positivo para as drogas recreativas por até três vezes, podendo ser suspensos também. Mas desde o primeiro caso, ele já passa por tratamento. A política antidoping da WSL é baseada nos procedimentos da Wada. Há três anos a gente faz uma série de testes ao longo do ano. Os testes não são anunciados, eles acontecem de surpresa e os atletas são selecionados aleatoriamente. Geralmente, eu escolho os vencedores do Round 3 ou os perdedores das quartas de final, dependendo do cronograma de cada campeonato. A gente testa de 10 a 14 atletas por prova em quase todas as etapas, daí o elemento surpresa, o atleta não sabe que vai ser testado, por exemplo, aqui no Rio de Janeiro”, esclareceu Hickel.

Com a palavra, o 11 X campeão mundial

Kelly Slater. Foto: Poullenot/WSL.

Kelly Slater se mostra contra a “invasão da privacidade dos atletas”, um dos pilares citados pela Wada como necessário para um controle antidoping bem-sucedido. Em entrevistas sobre o assunto,  Slater concordou que é necessário um controle para evitar trapaças. A WSL convidou o COI para as etapas da Austrália em 2016 e garantiu através do diretor global Graham Stapelberg que o doping é um assunto que será atendido de acordo com o que a Wada e o COI pedem.

“Não acho necessário invadir a vida pessoal de uma pessoa pelas suas escolhas individuais.” – Slater.

“Eu percebo uma pressão de fora porque fazemos parte de um esporte profissional e estamos tentamos aumentar cada vez mais o profissionalismo no surf. Muita gente diz: ‘Vai lá e faz o teste para mostrar que está limpo’. Se a ideia de testar as pessoas é descobrir se elas estão trapaceando, acho que esse é o objetivo. Não acho necessário invadir a vida pessoal de uma pessoa pelas suas escolhas individuais. Ninguém ali é seu pai ou sua mãe, não é a sua família para ficar te dizendo o que fazer e não fazer. As pessoas vão fazer o que elas quiserem e não há como impedir isso. O fato de a WSL fazer testes não me aborrece. Eu consigo me controlar numa boa”, falou Slater.

Quem está fora do Circuito Mundial também mostra sua opinião

Vice-campeão mundial em 1999 e 2007, oito vezes Top 5 e outras três como Top 10 em seus 18 anos na elite, Taj Burrow, que se aposentou na etapa de Fiji no ano passado, também deu sua opinião sobre as diferenças do período em que começou até a temporada de sua aposentadoria.

“Quando comecei no Tour, era tudo bem mais louco, as pessoas gostavam muito mais das festas, era uma coisa mais selvagem.” – Burrow.

Taj Burrow se aposentou na etapa de Fiji no ano passado. Foto:Cestari/WSL.

“A mudança dos tempos em que eu comecei até hoje é que naquela época simplesmente não se realizava nenhum tipo de teste. Acho importante termos um controle para que todos os surfistas se comportem. Quando comecei no Tour, era tudo bem mais louco, as pessoas gostavam muito mais das festas, era uma coisa mais selvagem. Hoje é tudo mais sério e profissional, com regras mais profissionais. Você é visto como um atleta profissional, enquanto no passado era só diversão. Atualmente todos se comportam bem e são extremamente profissionais”, disse o australiano de 38 anos, que vem de um tempo em que não havia nenhum controle em relação às drogas.

A Associação Internacional de Surf, responsável por gerir o surf na Olimpíada ao lado do COI,  afirma que não irá tolerar o doping e que apoia plenamente as orientações do Comitê Olímpico Internacional. A entidade faz testes dentro e fora de competições. Promessa para os Jogos de Tóquio 2020, Weslley Dantas, campeão mundial Junior ano passado, é a favor da política antidoping.

“Isso mostra que as pessoas estão preparadas para surfar sem algo no sangue.” – Weslley Dantas. Foto: Cestari/WSL.

“Acho muito bom. Isso mostra que as pessoas estão preparadas para surfar sem algo no sangue. Eu ainda não sei se serei convocado, mas, se eu for, representarei muito bem o Brasil. A ISA é muito rígida, nem energético pode tomar”, falou o irmão do top de Wiggolly Dantas, que realizou testes e espera fazer parte da delegação brasileira nas Olimpíadas.

Fonte: globoesporte.globo.com