SURFAR ART – CARLOS CARPINELLI

Carpinelli em processo de criação na sua casa em Garopaba, SC.

O sonho de viajar pelo mundo pintando e surfando os picos mais perfeitos só poderia ser alcançado através de muito trabalho e estudo.

Carlos Carpinelli deu o primeiro passo para a conquista do seu objetivo ao ingressar em uma marca multinacional de surf australiana, mas a sede na época ainda era na capital de São Paulo e mais uma vez surgiu a necessidade da busca pelo ideal. Os ventos sopraram para o sul do país, mais precisamente em Garopaba, SC, onde encontrou trabalho.

Na Mormaii desde 99, com a responsabilidade pelo departamento de criação e branding da marca, Carpinelli passou a morar na Praia da Silveira, local propício para o aprimoramento da sua arte e estilo de vida.  

Fotos: Arquivo Pessoal

Amanhecer em Itamambuca.

Como você definiria a sua arte? 

O sonho dos surfistas. O mar de gala nos picos que a gente ama, a cena que todos nós gostaríamos de ver quando chegamos para o surf… Enfim, uma coisa boa, algo que nos inspire a continuar na busca infinita pelo mar da vida, que possa ir além de vender ou conquistar algo, mas sim deixar e sentir algo de bom.

Passar um momento de felicidade para quem vê minha arte, mostrando até de forma purista as coisas e momentos que vivi ou gostaria de ter vivido, visto ou imaginado. No meio de tanta tristeza e crueldade, um respiro de pureza, beleza e uma sensação de paz. É como eu contribuo com o mundo e como digo para as pessoas “Aloha”!

Que material você normalmente utiliza para pintar?

Pinto com tinta à base de água, acrílica, e uso pincéis quase sempre, mas também uso rolo, esponja e até os dedos em muitos casos. Funciona assim: tenho uma imagem na cabeça e uso o que for mais eficiente para conseguir chegar ao efeito que busco.

Gosto de pintar sobre tela, pois faz a obra ter uma maior durabilidade. Como moro perto do mar, os papéis tendem a estragar com o tempo. Ou, então, desenho em metal, madeira…Vale tudo.

“Baía dos Sonhos”  – 2014 – pintura sobre tela 50x70cm em tinta acrílica, inspirada na praia californiana Big Sur.


 “Somente um surfista olha para uma praia com aquele olhar de quem procura um line up perfeito e entende como isso é especial de se mostrar para outro surfista.”


“A onda sem fim” (2005): pintura em tela medindo 150x130cm, onda que circula uma ilha e nunca acaba. Esse é o sonho de pico ou o pico que saiu de um sonho. 

Quais são as suas principais influências no meio artístico?

Christian Lassen (artista que mora no Hawaii) foi o cara que me inspirou quando eu era criança. Ele é incrível! As cores e as pinceladas são perfeitas… Não vi nada igual até hoje. Mas têm vários que eu poderia citar, desde os mais renomeados como Cézanne, Paul Gauguin, Van Gogh, Moebius e Gustavo Doré.

Além de alguns amigos, como Gustavo Rolim, Tom Veiga, Duka Machado e Fukuda, que também me inspiram, tanto na forma como pintar ou na postura de investir em sua carreira como artista e em seus sonhos. São artistas incríveis, cada um com suas qualidades e também sequelas típicas de artista (risos).

Detalhe da obra “Amazônia”.

Atualmente é possível viver de arte no Brasil? 

Creio que sim, mas não é o meu caso. Venho conciliando meu trabalho como diretor de criação com a minha evolução como pintor. 

Tenho amigos que são artistas profissionais, como Tom Veiga e Duka Machado, que vivem da arte, comercial ou não.

Tem a ver com sustentar cada estilo de vida e, principalmente, gostar do que se faz. A grana fica em segundo plano e pode rolar como consequência ou não.

Como foi que você se tornou diretor de arte? 

Desenho profissionalmente desde os 13 anos, quando fiz minha primeira estampa de camiseta para uma marca de surfwear. Me formei em Design aos 22 anos pela FAAP, SP, já trabalhando nessa área e pintando paralelamente.

Acho que me tornei diretor de arte quando começaram a me chamar assim, mas para mim eu só fazia o meu trabalho como sempre fiz. É uma missão que a gente ganha sem perceber. Parece diferente de se tornar advogado ou médico, que vem como um título ou nomeação acadêmica. No meu caso vem com a experiência prática.   

Praia do Rosa, SC.


“Passar um momento de felicidade para quem vê minha arte, mostrando até de forma purista as coisas e momentos que vivi ou gostaria de ter vivido, visto ou imaginado.”


Cacimba do Padre, em Fernando de Noronha.

E qual a principal diferença entre as artes plásticas e o seu trabalho de diretor de arte? 

A liberdade. Quando eu pinto, faço o que quero. Já quando dirijo um fotógrafo, faço o que a marca precisa, isento de ego e focado somente no compromisso firmado, pois se o trabalho não for bem feito, não haverá o seguinte, aí, não tem viagem ou surf em ondas perfeitas (risos)!

Artes plásticas e branding são totalmente diferentes, como água e vinho, ambos são importantes, mas um é fundamental e outro é opcional. Qual é qual? Depende de nossas prioridades que revezam ao longo da vida.

Pintura inspirada em foto de surfista em Nias (2000).

Você é autodidata ou fez algum tipo de especialização de pintura? 

Jamais tive aula de pintura, mas já trabalhei com alguns ótimos artistas. Muito do que faço hoje traz o que vivenciei com eles, principalmente o período em que fazia cenários para comerciais, na época em que ainda era muito cara a computação gráfica.

Os painéis de fundo de vídeo clips de bandas, como Capital Inicial ou de shows como o de Roberto Carlos, eram todos pintados à mão, hiperrealismo feito com rolo de tinta e pincel, uma fase de grande importância na minha formação como pintor, pois tínhamos obras grandes e um tempo super reduzido para terminá-las.

Quantos quadros você já pintou e qual foi o mais especial? 

Não sei exatamente quantos quadros já pintei, cerca de 200 ou mais, muitos se perderam sem registro. Acho que o mais importante é sempre o último, pois o que mais me interessa é todo o processo de aprendizado que acontece durante o caminho e as soluções que encontro para cada imagem que quero representar.

Estava fazendo um registro do litoral de Santa Catarina de um ângulo totalmente diferente, o que me faz ter que achar uma forma nova de pintar. Isso é o que mais me interessa, pois embora os quadros pareçam iguais quanto à técnica, sempre tenho que usar um pincel de forma diferente e, muitas vezes, eu até esqueço como foi que fiz em um quadro anterior e tenho que recriar o caminho para fazer a superfície da água ou outro detalhe qualquer.

Vista aérea da Praia da Silveira, pintura em tela medindo 100x130cm.


“Nem a pintura, nem a fotografia e nem nenhuma outra arte supera o prazer que tenho quando estou no mar. Surfar é, sem dúvida, o que me faz sentir mais vivo…”


Praia da Silveira, em Garopaba.

Você retrata ondas nacionais e internacionais. Viaja muito para isso? 

Sim. Tenho viajado como diretor de criação da Mormaii desde 2000 com o compromisso de trazer imagens que mostrem o feeling do surf, retratando os atletas patrocinados com um olhar de quem pega onda, o que é um grande diferencial. Somente um surfista olha para uma praia com aquele olhar de quem procura um line up perfeito e entende como isso é especial de se mostrar para outro surfista.

São detalhes simples que passam despercebidos para alguém que não pega onda, como colocar as quilhas, caminhar pela bancada ou uma remada no canal com um tubão de fundo. Tudo isso sempre em parceria com fotógrafos, como James Thisted, Sebastian Rojas, Alberto Sodré, Motauri Porto, caras que têm décadas viajando com os melhores surfistas do Brasil.

Traduzir as composições artísticas em pinceladas nas telas, entender como nossos olhos focam objetos próximos ou distantes e transferir essa impressão para as pinturas, tornando-as mais realistas e depois misturando o lado lúdico, resgatando assim o imaginário.

Ilustração com caneta POSCA vista de dentro do tubo.

Viajar bastante aprimorou mais a sua arte?

Já pintava ondas antes de viajar, mas depois que conheci picos como Pipeline, ScarReef, Lobitos, Galapagos ou Papua Nova Guine, entendi que são possíveis combinações de ondulação, marés e bancadas que jamais poderia ter imaginado.

Misturas que parecem impossíveis simplesmente acontecem naturalmente. Ondas quebrando com coqueiros de fundo, como em Nias. Ou outras que têm a base abaixo do nível da superfície do mar, como Teahupoo. Ou ainda as que beiram a praia durante 300 metros sem fechar, como Desert Point. E outras tão quadradas na maré seca, como Cacimba do Padre, apreendendo um pouco de como a natureza pode parecer surreal, muito além do que a razão pode supor.

Praia da Ferrugem, em Garopaba.

Qual sua análise sobre a arte manual X digital?

Arte é arte e técnica é técnica. Trabalhei como diretor de arte durante 15 anos, então tem trabalhos que fiz no computador que me orgulho tanto quanto minhas pinturas. É uma coisa pessoal, independente do que os outros pensam. O cara que quebra fazendo arte digital de qualidade e conceito, para mim tem a mesma moral.

O pincel, o mouse, a câmera fotográfica ou o spray são apenas meios de mostrar o que está em nossa mente e coração. Como nos comunicarmos com o mundo, deixarmos nossa marca, talvez por mais tempo que nós mesmos estaremos aqui, um legado, uma razão de ter existido, por isso vejo muita responsabilidade sobre todo o conteúdo que criamos e dividimos com os outros, que não pode ser apenas um conteúdo vazio. Querendo ou não, esse conteúdo vai ter um impacto, grande ou pequeno em quem percebe. A minha mensagem eu quero que seja de amor… Amor pelo oceano, pelas ondas e pela vida.

Surfando na Cacimba do Padre em 2012. Foto: Everton Luis.


“O pincel, o mouse, a câmera fotográfica ou o spray são apenas meios de mostrar o que está em nossa mente e coração.”


Na praia da Guarda com a esposa Cecilia e os filhos Yan e Maya.

Na praia da Guarda com a esposa Cecilia e os filhos Yan e Maya.

Qual Carlos é o mais feliz? O artista, o diretor de arte ou o surfista?

O surfista (risos)! É verdade! Nem a pintura, nem a fotografia e nem nenhuma outra arte supera o prazer que tenho quando estou no mar. Surfar é, sem dúvida, o que me faz sentir mais vivo e de longe minha maior paixão.

Esse mês eu tenho algumas pinturas para entregar, mas está dando muita onda aqui em Garopaba, além de altas em Silveira, Ferrugem, Vila… Aí fica difícil de conseguir parar para pintar, fotografar ou trabalhar (risos). Essa vai me deixar meio mal com os sócios (risos)! Mas a real é que temos uma filosofia de liberdade com responsabilidade, onde podemos fazer o que gostamos desde que tenhamos bom senso de ter nossas funções em dia.

Como profissional e artista realizado, que mensagem você deixa para as futuras gerações? 

A realização está em colocar em prática o que a gente tem prazer, pode ser pintando, desenhando, esculpindo, fotografando ou qualquer outra forma de expressão. Sem tesão, não rola. Daí, se rolar reconhecimento ou não, já valeu a pena. Como o amor, tem que ser incondicional, assim sai mais genuíno, sem uma cara de comercial ou do que está na moda. A dedicação não deve ser baseada na grana, que vem como recompensa. Ganhar dinheiro é bom, mas se entrar nessa pela grana provavelmente vai rolar uma frustração. O dinheiro vem como bônus, isso se a obra for realmente bacana. Se quiser entrar nessa para ganhar dinheiro, então é melhor ser advogado ou outra coisa qualquer.

Noronha, 2015.