Quatro dias inesquecíveis no barco… Esse foi o período que o jornalista Felipe Mortara passou no canal para cobrir o Billabong Pro Tahiti. Mas em vez daquele “clássico” texto sobre campeonato que estamos acostumados a ler, Felipe nos traz uma visão diferente…

No texto abaixo, Mortara mostra os sentimentos e sensações sobre o que viveu nesses dias, observando não apenas o que rola nas baterias, mas tudo que estava a sua volta e que passava desapercebido por quase todos que estavam no evento. (Em destaque: Medina foi o único que teve chances de levar o caneco no Tahiti, mas foi parado por John John numa bateria polêmica das semis. Foto: Poullenot/WSL)

Texto e fotos por Felipe Mortara

“Escrevi diário, baixei fotos, cochilei… Vivi.”

Life style no Tahiti. 

Dá para ouvir o som da remada do surfista na onda e o estrondo da água dobrando sobre a bancada de corais. Do azul ao verde, tons se sobrepõem em fração de segundos. Apesar de calmo, o canal vibra com o despontar de uma série no horizonte. Lá de dentro percebe-se que não dá para chamar de série as ondas que surgem tímidas, quase sempre em pares. Se de perto ninguém é normal ou igual, muito menos as ondas. A proximidade revela detalhes, frações. Onda tem cheiro, mar tem humores e temperamentos. Teahupoo pulsa com uma intensidade só sua, por isso é única e querida.

 “Nadei em Teahupoo… Senti uma adrenalina danada vendo as séries passando por mim enquanto eu mergulhava pertinho da bancada de coral. E as imensas montanhas pontiagudas ao fundo… Apenas eu e dois amigos na água. Sabe sonho?” 

Cada um por si e a plateia por todos. Dentro de botes, lanchas, se equilibrando sobre caiaques e stand up paddles, ou até mesmo boiando na área cercada para banhistas. Falta ângulo para ver cada onda do começo ao fim em segurança. É romântico assistir do canal em Teahupoo, mas acredite: quase não se vê, praticamente apenas se sente. Os gritos quando um vagalhão se aproxima, os assovios quando um surfista querido do público sai de um tubo. Frenesi com um aéreo na saída de cada onda completa.

Billabong Pro Tahiti.

Medina foi o único que teve chances de levar o caneco no Tahiti, mas foi parado por John John numa bateria polêmica das semis. Foto: Poullenot/WSL.Por tudo o que já fez até hoje e pelo que fazia neste campeonato, o 11 vezes campeão do mundo Kelly Slater ainda comove muita gente e tem bastante carisma. É solícito com todos, responde a acenos e a pedidos de selfie com um sorriso e atenção que fazem com que cada fã se sinta único. Contudo, Slater não era unanimidade e os gritos por John John Florence pareciam se sobrepor na grande final – talvez por ser havaiano e de alguma forma mais polinésio do que o floridiano Slater, talvez por ser a esperança de futuro campeão. Medina contava com alguma simpatia e por ele também ecoavam alguns berros.

“Fui convidado para jantar na casa de locais, onde se come com a mão (inclusive macarrão com molho branco).”

Pode até não parecer, mas é um tanto exaustivo passar quatro dias lá fora, flutuando na parte funda, mas bem pertinho da bancada de coral. O almoço muitas vezes é uma maçã, uma banana ou um sanduíche na baguete que sobrou do café da manhã. Chove e abre sol como surfista passa parafina na prancha. Banhos de protetor solar, tenho dúvidas se o buraco na camada de ozônio não está exatamente sobre o vilarejo de Teahupoo, que os locais conhecem como PK 0 (pê ká zêrrô).

Jadson jogando basquete num momento de folga.

Do mar para a terra, o visual das montanhas pontiagudas remete a monumentais pirâmides verdes, forradas não por árvores, mas por um manto de folhagem densa. De quando em quando, as nuvens as cobrem e as revelam ou um arco-íris as ressalta. A imponência dessa barreira verde faz a Serra do Mar parecer colina holandesa. Um respeito imenso.

“Virei brother de infância de um atleta do WCT . Não, não foi do Kelly Slater, ainda. Acompanhei uma partida de basquete entre Jadson e Medina.”

Em algum momento pude ver mais ondas e ter um ângulo melhor, mas não foi simples, conta-se com a boa vontade de alguns barqueiros, que na maior parte das vezes querem algo como R$ 60 por uma hora a bordo. Não é a coisa mais simples do mundo conseguir um canto num barco de imprensa, disputadíssimo e com poucas vagas.

Slater mostrou muito carisma durante o evento. Foto: Cestari/WSL.

Infelizmente a imprensa brasileira não é respeitada. Ainda assim, é melhor sentir o campeonato do que “ver”. As imagens estão na internet, sob todas as perspectivas, de dentro da água ou do drone. Mas era o sentimento que eu não costumava ver/ler/perceber nos relatos de quem já esteve aqui. E foi por isso que quis contar um pouco sobre os últimos incríveis quatro dias. Agora se abre um novo Tahiti, mais “vida real cotidiana” e menos surfístico, menos circo do campeonato mundial de surfe. Maeva!

O jornalista mostra uma visão única da competição no Tahiti.