VISÃO ACIMA DO LIP – UM ASSUNTO QUE OS BRASILEIROS SÃO ESPECIALISTAS

Kerrupt Flip, Stalefish, Slob, Full Rotation… Hoje existe uma incontável variação de grabs e rotações incorporados ao surf de alta performance. Desde a sessão com Marcos ‘Sifu’, Wellington ‘Gringo’ e Rodrigo ‘Sino’ no filme Lombrô 3 do videomaker Rafael Mellin em 2003, um marco no início do movimento dos tricksters no Brasil, os aéreos não pararam de evoluir e ganharam destaque no cenário nacional. Os voos passaram a fazer parte do dia a dia das praias brasileiras que produzem em série aerealistas para representar a nossa bandeira mundo afora. Assim, quando se fala nesse assunto, logo vem à mente nomes como Gabriel Medina, Filipe Toledo e Yago Dora.

Mas a intenção da Surfar é ir além desses grandes nomes ao apresentar uma galera que tem como objetivo principal acertar manobras jamais realizadas no surf. Uma lista com diferentes tipos de especialistas em aéreos do Sul ao Nordeste, desde os tricksters com a cena underground até os surfistas que buscam voar a todo o momento e levam os tricks para as competições. A certeza é que durante essa matéria os seus olhos estarão sempre voltados para cima do lip.  (Em destaque: Gustavo Schlickmann olhando a onda pela perspectiva que mais gosta: bem acima do lip. Foto: Arquivo Pessoal/João Portuga.)

Por Luís Fillipe Rebel.

“O trickster vive e surfa para voar e inovar, fazer o surf aprender com o filho moderno: o skate.” – Daniel Cortez, um dos pioneiros da cena de tricks no Brasil


REGIÃO SUL

A evolução do surf deu um salto com o surgimento dos tricks influenciados pelo skate. Assim, Florianópolis representa muito bem o cenário dos aéreos devido à forte união entre surfistas e skatistas, onde o tetracampeão mundial no bowl, Pedro Barros, está sempre voando dentro d’água e o freesurfer Ricardo Wendhausen é fera sobre rodinhas. Além de Riquinho, a cidade conta com grandes tricksters como Gustavo Schlickmann, Daniel Kuerten, Yuri Castro e Marlon Klein. O Etam Paese, de Curitiba, e Alan Fendrich, de Balneário Camboriú, também são importantes representantes da região Sul.

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Nome: Ricardo Wendhausen

Cidade: Florianópolis – SC

Patrocínio: Lost

Co-patrocínio: Monster e Energy Pirous Surfboards

Aéreo Preferido: Backside Rodeo Clown


 

Riquinho, um dos caras mais undergrounds do surf, é dono de um estilo único e aéreos como o 540 Rodeo Clown. A influência do skate é tão grande que, às vezes, é mais fácil encontrá-lo em pistas e bowls do que na água.

Aéreos muito impressionantes de backside são uma marca de Riquinho. Foto: James Thisted.

 “O trickster vê a onda como uma rampa e, se ela ficar gorda, ele dá o varial ao invés do cutback.” - Ícaro Rodrigues

 

Nome: Alan ‘Coco’ Fendrich

Cidade: Balneário Camboriú – SC

Patrocínio: Volcom

Co-patrocínio: Bernardo Porto Surfboards

Aéreo preferido: Coco Wrap

 

Alan alcançou reconhecimento mundial quando criou o Coco Wrap, uma variação do Shrink Wrap com o Sushi Roll. O aéreo venceu o prêmio de melhor manobra do mês da Surfline duas vezes.

 

 

Alan começou a tentar o Coco Wrap como se estivesse em uma moto. Agora, ele quer completar a manobra com uma volta a mais. Crédito: Osvaldo Pok.

 

Nome: Gustavo Schlickmann

Cidade: Florianópolis – SC

Patrocínio: Nenhum

Co-Patrocínio: Schlickmann Surfboards, Aesthetic Art e Casa das Pranchas

Aéreo preferido: Todos. O que importa é voar

 

 

Schlickman mandou muito bem nos campeonatos amadores usando seus voos. Quando profissional, ele largou as competições e ganhou destaque no free surf com o vasto arsenal de aéreos que possui.

 

 

Mais um aéreo alto de Gustavo Schlickmann. Dessa vez, um Frontside Grab 360 Reverse. Crédito: Arq. Pessoal/ João Portuga.


SÃO PAULO

Pioneirismo e inovação, a maior parte da história dos aéreos no Brasil foi escrita em São Paulo. Quando se fala nos tricksters, logo se pensa no forte cenário underground de Santos e Guarujá. Os santistas Rodrigo ‘Baby’, Cristiano ‘Pinguim’, Daniel Cortez, Rodrigo ‘Sino’ e Wellington ‘Gringo’ estão entre os principais percussores desse estilo no país e lutaram pela consolidação dos tricks na mídia. Já o Guarujá tem como destaque atual Ícaro Rodrigues, Rodrigo Generik e Murilo Graciola. A partir daí, a cena se espalhou até o litoral norte, e você comprova isso ao assistir caras como Thiago Camarão e Matheus Toledo em ação.

 

Nome: Ícaro Rodrigues

Cidade: Guarujá – SP

Patrocínio: Nenhum

Co-patrocínio: Achile Cerullo Surfboards, Monster Energy, Wanted Dream, Skullcandy e Widex Travel

Aéreo Preferido: Full Rotation

 

Quando se pergunta sobre os melhores aerealistas do Brasil, o nome de Ícaro aparece em todas as repostas. O guarujaense tem um dos repertórios mais completos do mundo em termos de grabs e rotações.

Considerado por alguns o melhor do Brasil em aéreos técnicos, Ícaro sabe da importância de valorizar o clássico no grab reto. Foto: Marcio Canavarro.

 

Nome: Rodrigo Generik

Cidade: Guarujá – SP

Patrocínio: Onbongo

Co-patrocínio: Hard Wave Surfboards e Etnies

Aéreo preferido: Kickflip

 

O primeiro brasileiro a completar um flip no surf, Generik é sinônimo de trickster. Conhecido pela habilidade para andar de switch stance, ele busca inovações através do skate e se amarra no cenário urbano.

 

É incrível como Generik consegue levantar voos altíssimos em ondas cheias. Crédito: Paula Costa.

 

Nome: Wellingon ‘Gringo’

Cidade: Santos – SP

Patrocínio: Nenhum

Co-Patrocínio: New Culture, Wanted Dream, Fu Wax, Xcel, 1981 Skate e Lemonde Turismo

Aéreo preferido: Backside Varial No Grab

 

 

Um dos pioneiros no segmento, Gringo foi inspiração para muitos tricksters, como Ícaro Rodrigues que o considera seu mestre. Ele não para de se renovar e segue tentando manobras jamais executadas.

Gringo foi inspiração para muitos tricksters brasileiros. Ele não para de se renovar e segue tentando manobras jamis executadas.  Slater usou o mesmo grab da foto maior para completar o 540  Foto: Arquivo Pessoal.

“O nast e o burns eram uma referência para mim no estilo de surf e lifestyle punk. Na época, eu apenas tinha visto caras assim em filmes californianos.” – Wellington ‘Gringo’

 

Nome: Daniel Cortez

Cidade: Santos – SP

Patrocínio: Volcom

Co-Patrocínio: Nenhum

Aéreo preferido: Varial

 

Cortez é um dos principais percussores do estilo de surf dos tricksters no Brasil. Venceu importantes campeonatos de aéreo no país e sempre lutou para os especialistas em aéreos ganharem o merecido espaço na mídia.

Daniel Cortez manda tão fácil esta manobra que por onde passa é chamado de Mr. Varial.  Foto: Everton Luis.

 

Nome: Fábio ‘Burns’

Cidade: Santos – SP

Patrocínio: Nenhum

Co-Patrocínio: Influence Videos

Aéreo preferido: Shove It

 

 

 

Burns é sempre lembrado pelos tricksters quando se fala na cena de São Paulo. Além de se dedicar a voar na água, ele é um dos brasileiros que mais tem conhecimento sobre o assunto.

Burns mandando um Indy Grab. Foto: Alexandre Ruas.

 

Nome: Gustavo Nastasi

Cidade: Santos – SP

Patrocínio: Nenhum

Co-patrocínio: RB Surfboards

Aéreos preferido: Full Rotation

 

 

 

Nast, como é conhecido, se indetificou com o surf de aéreos por gostar muito de skate. O seu objetivo assim que entra na onda é misturar os dois estilos, sempre de olho em uma parte boa para voar.

Nast tem facilidade para os aéreos de backside. Foto: Arq. Pessoal/Roberto Grandini.


RIO DE JANEIRO

A maior surf city do Brasil não poderia ficar “presa ao chão”. Com ondas fortes e buracos que facilitam os voos altos, mas dificultam muito as aterrissagens, Marcos ‘Sifu’ e Guilherme Tripa escreveram um capítulo à parte na evolução dos aéreos. Também é impossível se esquecer de Léo Hereda (baiano radicado no Rio), Marcelo ‘Trekinho’, Pedro ‘Scooby’ e Tiago Arraes, que hoje é o trickster mais ativo da cidade ao espalhar seus Supermans nas ondas cariocas. Ainda tem o novo integrante que carrega um nome de peso, Dávio Figueiredo. O filho de Dadá traz toda a contracultura do pai, que influenciou o estilo underground dos tricksters.

 

Nome: Tiago Arraes

Cidade: Rio de Janeiro – RJ

Patrocínio: Lost

Co-Patrocínio: Janga Wetsuits

Aéreo preferido: Superman

 

 

O “superman” do Rio de Janeiro une bastante as manobras que assiste no motocross à sua mente criativa para buscar sempre o diferente. Atualmente, ele se dedica à variação do Superman com o flip.

Se você estiver pela praia de Ipanema e olhar para cima, é bem capaz de ver Tiaguinho mandando o Superman ou alguma variação dele como o Lois Lane. Foto: Pedro Fortes.

 

Nome: Marcos ‘Sifu’

Cidade: Rio de Janeiro – RJ

Patrocínio: Volcom

Co-Patrocínio: Snapy Surfboards e Bullys

Aéreo preferido: Kerrupt Flip

 

 

 

A evolução dos aéreos no Brasil passa por Sifu. Sendo um dos percussores do país, ele teve destaque internacional ao abrir o Campaign 2 de Taylor Steele por ser o primeiro a acertar com precisão o Kerrupt Flip.

O primeiro no mundo a acertar o Kerrupt com perfeição quer expandir ainda mais a manobra e completar o Kerrupt Flip 720. Foto: Luiz Blanco.

 “Provavelmente 90% das pessoas vão dizer ‘esse cara desperdiça a onda inteira para aproveitar um momento. ‘ Mas 10% vão chegar  para você  e falar: ‘caralho, que aéreo animal, maluco!’ muita gente vai te criticar por isso, mas ‘foda-se’, o trickster quer acima de tudo surfar do jeito que ele gosta.” – Tiago Arraes

 

Nome: Léo Hereda

Cidade: Salvador – BA

Patrocínio: Nenhum

Co-patrocínio: Edgo Surfboards e Hereda Surf Hostel

Aéreo preferido: Superman

 

 

 

O baiano ganhou destaque no Rio de Janeiro com voos altíssimos e, apesar de ser do Nordeste, é sempre lembrado quando se fala na cena carioca.

Léo Hereda considera que o tow out o ajuda muito a treinar as rotações. Foto: Manoel Campos.

 

Nome: Dávio Figueiredo

Cidade: Rio de Janeiro – RJ

Patrocínio: Lost

Co-patrocínio: Dadá Figueiredo Surfboards, Evoke, Bar399 e Baja Barra

Aéreo preferido: No Grab Full Rotation

 

Dávio representa a nova geração underground carioca. O garoto anda de skate, tem uma banda de rock, carrega o estilo punk do pai Dadá Figueiredo e não para de evoluir nos aéreos.

Dávio tem se dedicado muito ao surf de aéreos. Foto: André Portugal.


NORDESTE

Os constantes ventos que sopram no Nordeste transformam o estado em uma fábrica de especialistas em aéreos. A atitude underground não é tão presente entre os aerealistas da região, mas eles têm os tricks na manga e buscam sempre as inovações. Hoje os voos estão no sangue dos nordestinos, portanto não se espante se você ver Junior ‘Lagosta’, Halley Batista, Messias Felix, Heitor Alves, Ítalo Ferreira e Gabriel Farias se juntarem durante a janela de espera de um campeonato para dar o máximo nos aéreos e, assim, surpreender nas baterias.

 

Nome: Gabriel Farias

Cidade: Porto de Galinhas – PE

Patrocínio: Seaway

Co-Patrocínio: Teccel, Wave Grip e Sunset Temakeria.

Aéreo preferido: Backside Full Rotation

 

 

Gabriel foi muito criticado até pelo pai por “perder a onda inteira” para aprender a mandar os aéreos. Mas ele nem ligava, queria voar de qualquer jeito e quando passou a acertar nunca mais parou.

 

 

Gabriel Farias prefere mandar os aéreos de backside, mas quando a rampa se forma para a direita ele também sabe variar muito bem, como nesse Slob Air. Foto: Clemente Coutinho.

“Os tricksters são uma base para nós que somos da competição. É uma galera que tem mais tempo livre para arriscar e inovar. Os caras são a base da evolução do surf. Fica mais fácil você conseguir evoluir nos aéreos vendo eles inventando primeiro.” – Messias Felix.

 

Nome: Messias Felix

Cidade: Fortaleza – CE

Patrocínio: Nenhum

Co-Patrocínio: Melq Ferreira Preparador Físico, Clínica Posture, Negreiros Gastronomia, CT Wax, Dragon Alliance, CDC Aragua e Luciana Radeke Nutricionista.

Aéreo preferido: Kerrupt Flip

 

O bicampeão brasileiro de surf Messias Felix é o exemplo de aerealista nordestino que, mesmo focado nas competições, sempre se dedica a mandar os tricks e tem todas as manobras aéreas no pé.

 

 

Com esse Shrink Wrap, Messias entrou na série Punt of The Month da Surfline, prêmio que elege a melhor manobra do mês. Foto: Frame/ Tchô Mondego.

“Para mim é mais fácil mandar um mctwist do que uma batida, um kerrupt do que uma rasgada.” – Junior Lagosta.

Nome: Junior ‘Lagosta’

Cidade: Ipojuca – PE

Patrocínio: Nenhum

Co-Patrocínio: First Glass, Vectro, D´koco e Bar do Marcão

Aéreo preferido: McTwist

 

 

Com muita elasticidade e uma base perfeita nos aéreos, Lagosta volta muito fácil de manobras como o Kerrupt Flip e o Mctwist.

Esse é o lema de Junior ‘Lagosta’: bico para cima e “Go Air!”. Foto:  Iaponã/ Neuronha.


VOOS NA ELITE

“Os tricks foram incorporados para o competidor, que sempre foi um atleta e isso ajuda muito o cara a ter um desempenho melhor. Eles acabaram até superando os tricksters em potência e regularidade, mas ainda não em criatividade”, destacou Marcos ‘Sifu’. Os aéreos entraram de vez nos campeonatos e cada vez mais é necessário ter as variações na manga para ser um integrante do WCT, principalmente porque os beach breaks do WQS são perfeitos para os voos. Isso resultou na tão falada tempestade brasileira, onde Gabriel Medina, Filipe Toledo, Miguel Pupo, Jadson André e o novo integrante Ítalo Ferreira são especialistas no assunto.

Entre as baterias do Billabong Pro Rio, Filipinho não deixou de arriscar manobras aéreas como esse Crazy Spin durante o free surf em Grumari. Foto: Sergio Rio.

“Acho que os tricks iam deixar os locutores e juízes com um nó no cérebro (risos). O Filipe Toledo está dando um show nas baterias e era isso que faltava, as manobras modernas.” – Alan ‘Coco’ Fendrich

Quando entrou no WCT, Gabriel deixou todo mundo em choque por voltar constantemente dos aéreos com diversas variações como esse Alley-Oop. Foto: James Thisted.

“Essa é a parte mais legal dos aéreos. Quando você consegue colocar um no pé, já quer aprender outro. Assim cada surfista puxa o nível do outro.” – Yago Dora

Para fechar a matéria, Yago Dora! O paranaense radicado em Santa Catarina ainda não faz parte do WCT, mas constantemente ganha destaque internacional através dos seus aéreos. E se você quer saber como é um Stalefish, olhe bem esta foto porque ele sabe mandar com perfeição. Foto: Corey Wilson.